Falar em competitividade em tempos de uma crise sem precedentes na história recente do turismo mundial pode parecer um pouco precipitado. Mas, diante de tanta incertezas e interrogações, uma coisa é certa: o turismo não vai deixar de existir e as pessoas, talvez em formatos e propostas diferentes, vão voltar a viajar. A resiliência do setor é um fato comprovado na história global, assim como sua capacidade de se recuperar de crises.

Já falamos desse assunto por aqui, mas não custa reforçar: diversos estudos apontam que há uma tendência de fortalecimento de viagens domésticas em detrimento das internacionais, seja pelo receio ou restrição da circulação de pessoas entre países, seja pela grave crise econômica que limita o poder de investimento em viagens. Alguns países já estão, inclusive, estimulando de maneira muito direta o turismo interno, como é o caso da Itália, por exemplo. Mesmo antes da pandemia, alguns estudos já apontavam a tendência de escolha por ambientes e destinos menos densos, ainda mais com a ameaça de patógenos, o que certamente será uma realidade muito presente. 

Há várias outras tendências sendo ventiladas por organizações e estudiosos do setor e não se pretende aqui esgotá-las. Fica claro, contudo, que oportunidades para o surgimento de destinos e experiências não convencionais ou para transformação de destinos, emergem.

É onde entra a competitividade.

No atual contexto de mudanças, certamente alguns fatores-chave da competitividade turística de um destino terão ainda mais peso.

No artigo sobre os fatores gerenciáveis da competitividade de um destino, destacamos que alguns pontos exercem forte influência nesta, como  a estruturação de uma oferta adequada à demanda, a adoção de estratégias de marketing consistentes e o estabelecimento de uma política pública somada a um planejamento que norteie o desenvolvimento da atividade (realizado com a cooperação entre os setores da cadeia). A presença de uma governança forte, democrática e intersetorial é um outro elemento considerado chave.

O planejamento, a política pública e a governança do turismo, frequentemente negligenciados ou tidos como ‘não importante’ nos destinos turísticos brasileiros, são FUNDAMENTAIS, sobretudo no processo de retomada e reinvenção diante de crises e desastres. Um estudo publicado na renomada revista científica Tourism Management antes do COVID-19 aponta, por exemplo, que uma política e governança adequada tem impacto positivo significativo, nas receitas do turismo de um país. Ou seja: ter uma gestão forte e integrada do turismo ajuda SIM a atrair turistas e aumentar as receitas com a atividade.

As mudanças no turismo como resultado do COVID-19 serão desiguais no espaço e no tempo, como destacado em artigo de pesquisadores referência na área (Hall, Scott & Gösslin). Enquanto alguns destinos poderão se transformar, se concentrando em formas mais profundas e sustentáveis do turismo ou oferecendo produtos diferenciados, outros poderão seguir na mesma lógica pré-pandemia. 

Nós do Turismo Spot acreditamos um turismo que seja respeitoso e justo para a comunidade e o meio ambiente e que contribua com impacto positivo nos territórios. E é sob o planejamento, a gestão e uma governança forte que está o maior potencial de reinvenção e, sobretudo, inovação.

Conhecer o perfil da ‘nova’ demanda, definir estratégias de diferenciação, criar novos produtos alinhados ao mercado, estabelecer práticas responsáveis e sustentáveis e (re)posicionar-se no mercado são alguns dos eixos a serem discutidos e construídos coletivamente pelas governanças turísticas e considerados no processo de planejamento. Isso, seguramente, significará uma enorme vantagem competitiva para destinos turísticos nos próximos anos!

 

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Isabela Sette

Isabela Sette

Também da terra do pão de queijo, mora em São Paulo e acredita que o turismo pode ser uma ferramenta importante de desenvolvimento local, com respeito e sustentabilidade. É estudiosa da área e adora escrever sobre o tema! Também é sócia da Turismo 360 e se sente privilegiada por trabalhar com amigos que tanto admira. Acredita que o Turismo Spot tem a missão de levar um conteúdo técnico relevante porém acessível, que pode ser aplicado no dia-a-dia da gestão do turismo. E de quebra ainda possibilita escrever e refletir com uma amiga e profissional das mais completas e visionárias que conhece, Marcela Pimenta!

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