Na imagem a turismóloga Thais Rosa apresenta o roteiro da Pequena África no Rio de Janeiro. Foto de Divulgação Conectando Territórios

Falar sobre turismo antirracista no Brasil deveria ser desnecessário. Deveria ser desnecessário uma vez que o país detém o primeiro lugar em população negra fora da África. Dados indicam inclusive que o Brasil é o segundo país em população negra do mundo, só ficando atrás da Nigéria[1]. Mas, infelizmente, falar sobre o racismo que acontece no turismo é mais do que necessário e, além disso, é preciso ser antirracista.

56,10% é o percentual de pessoas que se declaram negras no Brasil, segundo a mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE[2].  Os negros são maioria da população, sendo a soma de pretos e pardos. Dos 209,2 milhões de habitantes do país, 19,2 milhões se assumem como pretos, enquanto 89,7 milhões se declaram pardos. 

Ainda assim, o racismo por aqui segue como uma estrutura, uma regra velada que influencia em todas as áreas, desde acesso à saúde e educação básica até as melhores oportunidades de emprego, a forma de trabalhar, sociabilizar e viajar no país e fora dele. É aquela característica que todos sabem que existe, mas uma parte dos brasileiros ainda se nega a acreditar (ou escolhe manter) – e normalmente essas afirmações vêm carregadas de preconceito. 

Mas contra dados não há argumentos. E os números expõem a desigualdade racial no Brasil.

 

Negros são a minoria viajando

Foi difícil encontrar pesquisas e números exatos sobre a porcentagem de viajantes negros brasileiros, seja passeando internamente ou no exterior. O Ministério do Turismo não disponibiliza essas informações, e mesmo a iniciativa privada do setor parece ainda não ter investido em dados sobre o assunto. (Se souberem desses dados, inclusive, por favor compartilhem com a gente. Ou que tal desenvolver um estudo nesse campo?).

Por outro lado, sobram negros em trabalhos de serviços braçais e menos remunerados ligados ao turismo. E quem nos diz isso é a vivência. Uma edição da revista Panrotas, especial sobre o tema em 2018[3], mostrou que entre os aprendizes, os negros chegam a 57,5%. Mas considerando o Conselho de Administração como o topo da carreira profissional, a representatividade cai para incríveis – e lamentáveis – 4,9%. Assim, inclusive a classe social e a renda menor entre a população negra se tornam fatores determinantes para a impossibilidade de uma viagem – que pra muita gente é luxo. 

Há poucas semanas, na Raízes Desenvolvimento Sustentável, nos comprometemos publicamente a assumir posturas e a fazer parte do movimento turismo antirracista. E, para tal, contamos com o depoimento da nossa coordenadora de projetos, Lucila Egydio. Mulher, negra, brasileira, bióloga, especialista em sustentabilidade, ecoturismo e mestre em gerontologia, ela faz um convite a todos nós, como turistas:

“Observe quando você estiver viajando quantas pessoas que estão no seu hotel, hospedadas, são negras… E quantos são os funcionários negros. Observe no restaurante que você for jantar quantas mesas são ocupadas por pessoas de outras cores. Perceba na hora que você for passear quem são os serviçais e quem são os turistas. Observe em todos esses lugares quantas são as mulheres negras ocupando cargos de chefia”.

E por falar em mulheres negras… A imagem da mulher brasileira ainda é muito ligada ao turismo sexual no exterior. E isso ainda pesa muito mais para a mulher negra, vista como prostituta, com o imaginário da “mulata” por anos vendido pelo setor.

 

Herança escravagista

Por todas essas questões, fica mais do que claro que a herança escravagista é muito viva em nosso dia-a-dia, pro bem e pro mal. Se temos de lidar com todos os tipos de preconceito que os negros vivem, por outro lado, falta reconhecimento para tamanha riqueza da cultura brasileira, e sua incontestável referência africana da música à religião.

Em Cabo Verde, por exemplo, país do continente africano no qual já tivemos a oportunidade de implementar um projeto de turismo rural e também de iniciar uma parceria contra a pobreza menstrual com mulheres da região, a cultura é muito próxima da nossa. Eles sabem muito sobre o Brasil por conta da luso-afinidade. Muitos escolhem nosso país como campo de estudos e conhecimento, sabem da nossa história, acompanham as produções culturais brasileiras que são veiculadas por lá. Daqui, pelo contrário, pouco sabemos sobre eles. Não visitamos Cabo Verde. E quando brasileiros visitam a África, ainda é mais comum que se concentrem em safaris que em experiências culturais.

E por falar nas experiências turísticas brasileiras que retomam a história da população negra no país, existe ainda uma linha tênue que separa o bom turismo, que mostra as cicatrizes da escravidão para não cometermos os mesmos erros como sociedade, e iniciativas de gosto duvidoso, quase uma “disneyficação” de senzalas.  

Como um bom exemplo de como as heranças africanas no Brasil podem ser ressaltadas de modo positivo, construtivo, legítimo e divertido, podemos citar o roteiro da Conectando Territórios pela “Pequena África” no Rio de Janeiro. Na contramão, contudo, a Fazenda Santa Eufrásia em Vassouras, interior do Rio, propôs uma visitação que reproduz e naturaliza a escravidão, com a dona da fazenda vestida de sinhá e empregadas negras servindo os turistas vestidas de escravas, como denunciou o The Intercept.

 

O que fazer?

Reconhecer a existência do racismo, entender a sua posição e papel como cidadão e o seu lugar de fala são algumas atitudes que fazem diferença para começar. Estude, leia autores negros, ouça pessoas negras. A partir daí, podemos tomar atitudes antirracistas como falar sobre o tema, por exemplo – justamente como estamos fazendo aqui. 

A filósofa negra Djamila Ribeiro afirma que lugar de fala “não é impedir alguém de falar, é dizer que outra voz precisa falar”[4]. Assim, faz parte reconhecer os privilégios da branquitude e usá-los em favor da causa. 

Recentemente o Sistema B, do qual fazemos parte, lançou em parceria com o Instituto de Identidades do Brasil (IDBR) o manifesto Seja Antirracista. A Raízes já assinou, e entre as ações sugeridas estão:

 

  •       Publicar o número de pessoas negras em cargos executivos no Brasil na/da minha empresa em meu website e traçar uma meta de quantos profissionais autodeclarados negros e negras minha empresa se compromete a contratar anualmente.
  •       Dedicar horas exclusivas por mês em treinamentos voltado à educação racial no Brasil para os profissionais que trabalham na empresa.
  •       Apoiar empresas e projetos liderados por pessoas negras e ou ligados ao avanço da pauta antirracista no Brasil.

 

Assim, acreditamos que a luta antirracista vem para além de “não ser racista”. Mas sim em tomar atitudes proativas para aceleração da mudança. Inclusive no turismo. Vamos juntos?

 

[1] http://www.est.com.br/periodicos/index.php/identidade/article/download/2272/2167

[2] https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2019/11/20/consciencia-negra-numeros-brasil/

[3] https://www.panrotas.com.br/mercado/pesquisas-e-estatisticas/2018/11/black-money-onde-estao-os-profissionais-negros-do-turismo_160537.html

[4] https://www.youtube.com/watch?v=bffEFMXH6FM

 

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Mariana Madureira e Jussa Rocha

Mariana Madureira e Jussa Rocha

Seguem juntas nessa parceria chamada Raízes Desenvolvimento Sustentável. O negócio social surgiu em 2006, co-fundado por Mariana, com a vontade de tornar o mundo mais justo por meio do turismo comunitário e sua produção associada. Jussara Rocha, com larga experiência em governança no turismo, se juntou nessa missão em 2012 e hoje é sócia e coordenadora de projetos que elas desenvolvem. Valorização da diversidade é uma das premissas principais da Raízes, bem como o empoderamento feminino e o desenvolvimento de soluções coletivas e resilientes. Sobre o Turismo Spot - É um espaço aberto, sério e comprometido com o conhecimento sobre o turismo, suas múltiplas relações e impactos . Uma “biblioteca temática” on line que permite troca de saberes, formação de opiniões e reflexões que trazem luz à diversidade que o próprio tema instiga e necessita. Parabéns!!!

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