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Viajar para cuidar da saúde é algo que sempre existiu. O que está mudando é como essa viagem é pensada.

Durante décadas, o turismo médico foi tratado como um deslocamento funcional: alguém saía de sua cidade para realizar um procedimento, resolver um problema específico e voltar para casa o mais rápido possível. O foco estava no ato clínico. Todo o resto — hospedagem, deslocamentos, idioma, recuperação — era responsabilidade do paciente.

Esse modelo começa a perder força quando o mercado percebe que cuidar da saúde também é cuidar da experiência. E que, em um mundo onde tempo e conforto são ativos escassos, o diferencial vai além da excelência médica, alcançando a forma como a jornada inteira é organizada.

É nesse ponto que o paciente passa a ser visto como hóspede.

Em 2024, o mercado global de turismo médico já foi avaliado em cerca de US$ 84,92 bilhões, com previsão de crescer para quase US$ 240 bilhões até 2029, refletindo a expansão acelerada da área.

O cuidado vira experiência

A mudança é estrutural.

O paciente tradicional se adapta ao sistema: consulta aqui, exame ali, deslocamentos repetidos, dias improdutivos, incertezas. Já o hóspede de uma jornada de saúde encontra um sistema que se adapta a ele: agendas coordenadas, menos deslocamento, ambientes preparados para recuperação, apoio cultural e logístico.

Essa virada desloca o debate de “qual hospital é melhor?” para uma pergunta mais estratégica: quem organiza melhor a experiência de cuidado?

É nesse território que o turismo médico passa a ser uma estratégia de hospitalidade.

Infraestrutura integrada: o verdadeiro diferencial do turismo médico

Os principais destinos globais de turismo médico possuem, é claro, bons profissionais e tecnologia de ponta, mas destacam-se porque operam infraestruturas integradas, capazes de reduzir atrito, gerar confiança e organizar o tempo de quem viaja.

Projeto de hotel de luxo focado em Turismo Médico entre Emiliano, Parque Global e B.Treat.

Infraestrutura integrada é a coordenação entre sistemas:

  • agendas médicas pensadas para quem tem poucos dias disponíveis;
  • redução de deslocamentos entre consultas, exames e repouso;
  • hospedagem adaptada ao pós-procedimento;
  • atendimento multilíngue e sensível ao contexto cultural;
  • logística previsível antes, durante e depois do tratamento.

Quando essa engrenagem acontece, o turismo médico torna-se um produto estruturado.

O que os grandes cases globais já entenderam

Na Tailândia, o Bumrungrad International Hospital construiu uma operação pensada para pacientes internacionais. O hospital organiza a jornada de ponta a ponta, integrando atendimento médico, suporte cultural e articulação com a cidade. 

Bella Longuinho em sua jornada pela transição de gênero na Tailândia.

Nos Estados Unidos, a Mayo Clinic desenvolveu programas como o Executive Health Program, no qual check-ups completos são estruturados como itinerários de poucos dias. A proposta de valor do programa está na eficiência do tempo.

Na Suíça, a Clinique La Prairie transformou longevidade e prevenção em um produto de hospitalidade premium. A medicina é o centro, mas o ritmo, o ambiente e o cuidado com o pós-atendimento fazem parte indissociável da proposta.

Em Dubai, a Dubai Health Experience mostra outro caminho: infraestrutura institucional e digital organizada para facilitar a jornada do paciente-viajante. Informação clara, coordenação entre atores e uma lógica de porta de entrada única aumentam a confiança do mercado internacional.

Em contextos distintos, esses modelos partem de uma mesma premissa: a experiência de quem viaja para cuidar da saúde precisa ser pensada como um sistema.

Um movimento que começa a aparecer no Brasil

É nesse contexto que o anúncio do projeto do Hotel Emiliano, em São Paulo, ganha relevância. Mais do que ser “o primeiro” hotel brasileiro com foco explícito em turismo médico, o projeto sinaliza uma mudança de mentalidade: a hospitalidade passa a ser entendida como parte da infraestrutura de saúde.

Dra. Carolina Uip, sócia-fundadora da B.Treat e filha do infectologista David Uip. Foto: Divulgação/Carolina Uip

A proposta reconhece que reduzir deslocamentos, integrar serviços e oferecer previsibilidade é tão importante quanto a excelência clínica. E sugere que a saúde pode se tornar um motor de estadias mais longas, qualificadas e internacionais.

Mais do que discutir o projeto em si, o que realmente importa é o que ele sinaliza para o mercado. A iniciativa aponta para uma mudança de mentalidade: a compreensão de que turismo médico não se estrutura apenas com hospitais de excelência, mas com um ecossistema integrado de serviços, hospitalidade e coordenação.

A questão central, portanto, não é o hotel como exceção, mas sua capacidade de catalisar um movimento mais amplo. Ele permanecerá como um ponto fora da curva ou ajudará a inaugurar uma lógica sistêmica, capaz de articular saúde, hotelaria e estratégia de destino?

Por que o Brasil pode ser um terreno fértil

Há uma construção histórica de reputação em áreas como cirurgia plástica, com projeção internacional de escolas e profissionais (Ivo Pitanguy é um símbolo desse legado). Ao mesmo tempo, grandes centros urbanos reúnem hospitais de alta complexidade, equipes especializadas e uma rede de serviços capaz de absorver demanda de fora, o que ajuda a explicar por que os principais polos citados para turismo médico no país aparecem em capitais e metrópoles, como São Paulo e Rio de Janeiro, além de Recife, Porto Alegre e Curitiba.

Projeto de hotel de luxo focado em Turismo Médico entre Emiliano, Parque Global e B.Treat.

Quando o recorte é econômico, o peso do tema fica ainda mais claro. Um estudo citado em reportagem aponta que em São Paulo, o turismo de saúde gera cerca de R$ 49,7 bilhões por ano, com mais de 4,2 milhões de visitantes atraídos pela oferta médica e estética anualmente. Mesmo que a composição exata desse fluxo misture atendimentos, procedimentos eletivos e serviços associados, o dado mostra uma coisa que interessa ao turismo: existe escala e gasto, e isso já tem impacto na cidade.

No pano de fundo, estimativas de mercado projetam crescimento relevante do turismo médico no Brasil ao longo da próxima década. A IMARC, por exemplo, estimou US$ 3,7 bilhões em 2025 e projeta o setor acima de US$ 16 bilhões em 2034. E, no contexto regional, análises situam a América Latina em trajetória de expansão, com projeções acima de US$ 17 bilhões até 2027.

Portanto, fica claro que o Brasil já tem ativos e já tem mercado, mas ainda não está claro como esses ativos se organizam quando o interlocutor é externo, quando há exigência de previsibilidade, e quando a régua de comparação é global (padrões de informação, suporte, continuidade do cuidado e experiência). É nessa camada que o país tende a ganhar ou perder competitividade.

O que está em jogo para o turismo brasileiro

O turismo médico envolve muito mais do que procedimentos. Ele impacta o tempo de permanência, gasto médio, imagem internacional e a capacidade do país de atrair públicos fora da lógica tradicional do lazer.

Mais do que isso, exige maturidade: integração entre saúde, hotelaria, serviços urbanos e estratégia de destino. Força o setor a sair do improviso e pensar em cadeia produtiva.

Para um país que discute competitividade turística, inovação e reposicionamento internacional, ignorar esse movimento é abrir mão de um segmento de alto valor agregado.

Do procedimento à jornada

O turismo médico coloca um problema concreto para o Brasil: como transformar ilhas de excelência em uma oferta inteligível para quem vem de fora. Isso envolve coordenação entre hospitais, hotelaria, mobilidade, comunicação e regras de relação com o paciente internacional, inclusive dentro do marco ético de publicidade médica.

Se o país quiser disputar esse mercado com seriedade, a discussão deixa de ser apenas sobre reputação clínica e passa a ser sobre desenho de sistema, coordenando acesso, previsibilidade, suporte e continuidade. É esse conjunto — e não um único empreendimento — que determina se a tendência pode virar um posicionamento internacional ou permanecer como demanda dispersa.

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