Em ciclos velozes, em que o instante parece não poder mais ser medido pelo tempo que se necessita para observar, analisar e tentar compreender a realidade circundante nem, muito menos, o interior do ser que pensa, debruçar-se sobre alguns aspectos descritos em descobertas arqueológicas pode ser algo importante e, mesmo, salutar. Talvez isso possa contribuir para resgatar não somente “o tempo perdido”, mas uma parte da compreensão do que o Homo sapiens sapiens levou milênios para construir ao longo de sua evolução biológica.

Assim, “era uma vez”, há cerca de quase nove mil anos, um assentamento humano localizado na região sul da Anatólia (Turquia).

Parece ficção, mas hoje, nesse lugar chamado Çatalhöyük (pronuncia-se “chatal-ruiuk”), são feitas importantes escavações arqueológicas que lançam luz sobre o passado da vida humana na Terra, permitindo, com isso, que se olhe para o presente e para o futuro. As casas eram geminadas e posicionadas uma de costas para a outra. Não existiam, propriamente, ruas – caminhava-se pelos tetos das construções, e eram por ali a entrada e a saída das habitações, as chaminés e claraboias.

Sítio arqueológico neolítico de Çatalhöyük, um local classificado como Patrimônio Mundial da Unesco, no distrito de Cumra, em Konya, Turquia. Serhat Cetinkaya/Anadolu/Getty Images via CNN Newsource.

São inúmeras as curiosidades sobre esse povoado: em vários sítios eletrônicos – acadêmicos e de divulgação científica –, aprende-se que as casas eram construídas de tijolos de barro e seu interior era coberto por gesso. Contrariando nossa ideia de pouca ou nenhuma “civilização”, os achados arqueológicos mostram um lugar excepcionalmente limpo. Dentro das casas, não foram encontrados sinais de descartes. A revista Aventuras na História nos dá conta de que as pessoas ali cultivavam trigo, cevada e ervilha, coletavam amêndoas e pistache na natureza e iniciavam-se na domesticação e criação de gado e cabras, embora ainda caçassem, indicando uma possível busca pela manutenção ou garantia da sua dieta. Em menor escala, consumiam ovos e aves aquáticas. Há, também, indícios de que havia socialização entre vizinhos, com a utilização de fornos comunitários e trocas comerciais: tudo lá “em cima”, nas tais ruas suspensas.

Em Çatalhöyük há indicativos do início da metalurgia, da fusão de metais; há fragmentos de tecidos e, até, uma pintura que “parece ser da própria cidade” como se fosse um mapa e uma primeira pintura de uma paisagem.

Religião? Foram encontradas figuras femininas, sempre obesas, semelhantes às usadas antes desse período, mas agora encontradas também em cestas, talvez em busca de proteção para as colheitas. Quanto aos mortos, os enterramentos eram no andar inferior das casas.

Você pode estar se perguntando: o que isso tudo tem a ver com o título dessa conversa? Minha ideia era “fisgar” você com a mesma curiosidade que tive ao ler uma notícia em uma revista de divulgação científica.

Foto: Pão ‘mais antigo do mundo’, datado de 6.600 a.C., foi descoberto na Turquia. Reprodução.

Recentemente, a mídia não acadêmica noticiou a descoberta – esta, sim, documentada e discutida em artigos publicados em revistas científicas, de um pão ancestral. Eu o chamo de ancestral porque sua datação é de cerca de oito mil anos. O alimento literalmente veio à luz durante escavações nas tais colinas dos tempos neolíticos no sul da Anatólia. De acordo com o sítio eletrônico da Unesco, a colina a leste abriga “dezoito níveis de ocupação Neolítica entre 7400 a.C. e 6200 d.C., incluindo pinturas rupestres, relevos, esculturas e outros exemplares simbólicos e artísticos”. O outeiro a oeste, continua o texto, “mostra a evolução da organização social e de práticas culturais produzidas a partir da adaptação humana à vida sedentária entre 6200 a.C. e 5200 a.C.” (tradução livre). Esses achados indicariam a ocupação da mesma localidade por mais de dois mil anos, testemunhando a transição de pequenos vilarejos às aglomerações urbanas, que hoje conhecemos como cidades.

Os humanos do mundo contemporâneo veem-se diante de grandes e variados desafios resultantes de sua própria movimentação sobre o planeta e da utilização que fizeram de suas descobertas e inventividade. Considera-se que o período Neolítico tenha sido o palco para a “grande revolução” humana, do aperfeiçoamento dos utensílios e objetos que permitiram sua fixação aos territórios, a domesticação dos animais e das plantas. Diferentes autores discutem, sob diferentes pontos de vista e epistemologias, a vida terrestre na pré-história. Contrariamente a ser um problema, não se ter um único olhar sobre um passado tão distante que permite somente supor algumas ideias, essas discussões aportam riquezas próprias de cada disciplina e área de estudo. Assim é com a Arqueologia, a Paleontologia e a História, por exemplo.

Foto: Pintura rupestre de uma cena cotidiana com gado no Neolítico, em Tassili n’Ajjer (Argélia). Agostini Picture Library (GETTY)

É neste contexto de descobertas arqueológicas que nesta reflexão pretendo colocar vis-à-vis, um possível passado e um presente que está prestes a se tornar impossível diante dos usos indiscriminados, açodados e, mesmo, vorazes, que a humanidade tem feito dos recursos naturais, descobertos naquele tempo longínquo, no período em que o “domínio sobre a terra” se deu. Ao que tudo tem indicado, diante das catástrofes que já ocorrem e do iminente caos a que se dirige, o homem contemporâneo demonstra sentir saudades de um tempo passado. Contudo, contrariamente a esse sentimento, prossegue na destruição desses mesmos recursos, ameaçando a continuidade da vida humana sobre a Terra.

Assim, foi pensando no “pão ancestral” que me pus a refletir sobre essa espécie de nostalgia que parece tomar conta do nosso espírito, fazendo-nos quase ansiar pelo retorno “daqueles tempos”. Quem sabe, você gostará de me acompanhar nessa viagem? Aliás, é o que desejo fazer, mesmo – perambular (turistar?) por aqueles tempos e refletir sobre os dias atuais.

Várias pesquisas apontam que Çatalhöyük não foi o único local – talvez nem o primeiro – em que os humanos se assentaram, mas suas características tão estudadas permitem uma base sólida para a nossa reflexão. Fato é que quando os humanos domesticaram animais e plantas, e aprenderam a forjar metais, deu-se início ao comércio, às divisões de trabalho e às desigualdades. O indivíduo passou a “contar mais” que a comunidade. Uma vez sedentarizado, o Homo sapiens sapiens começou a acumular, estocar e vender. E, claro, a guerrear de um modo mais sofisticado, no intuito de dominar e possuir mais. Surgiram, de forma mais explícita, os conflitos, as carências e a dominação de uns pelos outros. As cidades cresceram juntamente com o patrimônio e a riqueza.

Homens e cidades se desenvolveram às custas do ambiente, extraindo dele os insumos necessários à construção de moradias (não mais somente abrigos) e locais de armazenamento,  tanto de  alimentos como de outras mercadorias mais ou menos necessárias, desde que trouxessem poder e domínio.

Pode-se idealizar com facilidade as reuniões sociais sobre as casas de Çatalhöyük. É fácil imaginar artesãos, comerciantes em geral e entregadores, ver visitantes e criadores circulando pelos arredores. Contudo, não será preciso caminhar muito para ver o trabalho duro, muitas vezes, até forçado ou mal remunerado. Alguns estudos arqueológicos discutem a dieta e a saúde das pessoas nessas protocidades. Pesquisadores apontam para a falta de ferro no organismo, principalmente entre as mulheres: uma incongruência com o fato de haver maior disponibilidade de carnes e vegetais. Ao que parece, a fome não ficou menos dramática que nos tempos de caça e coleta.

Foto: Turquia/Pexels

Humanos e cidades cresceram em número e em tamanho. Diz-se que evoluíram. Hoje temos arranha-céus que parecem copiar a arquitetura de ajuntamentos humanos como Çatalhöyük – casas umas sobre as outras, algumas, inclusive, com áreas comuns no último piso, onde as pessoas podem se reunir e socializar. A pressa toma conta de tudo e de todos. Há que alimentar, vestir e atender às necessidades do ser humano que, no entanto, parece nunca se saciar. Assim prosseguimos exaurindo os recursos naturais e perpetuando as desigualdades sociais; criando crises e conflitos intermináveis. Vorazmente, vamos desrespeitando a vida e suas possibilidades de existir.

O pão ancestral pode nos ensinar algumas coisas para além da descoberta científica e da curiosidade sobre o período da “grande revolução” evolutiva. O alimento foi encontrado parcialmente assado e aparentemente sem um bocado. Especula-se que poderia ser uma oferenda a uma divindade. Gosto de imaginar que tenha sido, de fato, uma oferta sagrada, na esperança, desde então, por um mundo mais equânime e inclusivo, por uma vida mais suave.

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Iara Brasileiro

Iara Lucia Gomes Brasileiro Doutora em Ciências pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP). Na Universidade de Brasília (UnB), foi diretora do Instituto de Ciências Biológicas; idealizou, implantou e coordenou o Bacharelado em Turismo; integrou o corpo docente do Mestrado Profissional em Turismo (CET) e dos programas de Mestrado e Doutorado do Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS). Pesquisadora do Laboratório de Estudos em Turismo e Sustentabilidade (LETS)/CDS. Sobre o Turismo Spot - Um excelente lugar para discutir e aprender sobre o turismo. Leve e descomplicado, facilmente disponível e acessível. Um passeio, uma visita, uma viagem pelos caminhos das "políticas públicas, governança, mercado, competitividade, inovação, educação" e o que mais pudermos pensar para o entendimento e o desenvolvimento do setor na sua complexidade. Um privilégio ser convidada a contribuir para o Turismo Spot!