Presidente da Associação Rede Brasileira de Trilhas, Júlio Meyer avalia o decreto que criou o Sistema Nacional de Trilhas e explica como a malha de trilhas se tornou um instrumento de cooperação e de renda no interior do país.

O decreto que instituiu o Sistema Nacional de Trilhas (Sintrilhas), assinado em 10 de junho, deu a uma construção de quase duas décadas o estatuto de política pública permanente. Assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, o ato transformou a Rede Nacional de Trilhas de Longo Curso e Conectividade (RedeTrilhas), criada em 2018, em uma estrutura nacional com governança, cadastro e estratégia próprios.

Por trás dessa malha, no entanto, existe um movimento anterior ao decreto. A Associação Rede Brasileira de Trilhas, entidade da sociedade civil fundada em 2019, é quem implementa e faz a gestão das trilhas de longo curso no país — um trabalho conduzido em boa parte por voluntários e por servidores de unidades de conservação. É essa diferença entre a política pública e o movimento que a sustenta que orienta esta conversa.

O Turismo Spot entrevistou Júlio Meyer, presidente da Associação Rede Brasileira de Trilhas, para entender o que muda na prática com o Sistema Nacional de Trilhas, na leitura de quem está na ponta da construção.

Na prática, o Sintrilhas cria instrumentos de governança como a Estratégia Nacional de Trilhas, o Cadastro Nacional de Trilhas e o Comitê Nacional de Trilhas, além de ampliar a participação de estados, municípios, comunidades tradicionais e iniciativa privada na gestão do segmento. Segundo o Ministério do Turismo, a Estratégia Nacional deve ser elaborada em até 180 dias após a instalação do comitê, que definirá as metas prioritárias.

O Sistema Nacional de Trilhas consolida uma malha que já soma 22 trilhas oficialmente reconhecidas e mais de 7 mil quilômetros sinalizados, presentes em 18 estados, 184 municípios e 347 unidades de conservação. O planejamento nacional projeta ultrapassar 16 mil quilômetros de rotas, cobrindo todos os biomas terrestres e a zona costeira e marinha, de acordo com o Ministério do Turismo.

Foto: Divulgação Rede Trilhas

Quem é Júlio Meyer

Júlio Meyer preside a Associação Rede Brasileira de Trilhas no biênio 2025–2027. Gestor de unidades de conservação estaduais no Pará, é um dos idealizadores da Trilha Amazônia Atlântica, apresentada na COP30, em Belém, como a maior trilha sinalizada da América Latina. Acompanha o desenvolvimento das trilhas de longo curso no país desde antes de o tema se tornar política federal permanente.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Uma marca construída pelo voluntariado

Esse esforço de sinalizar trilhas vem do voluntariado há muito tempo. O que mais te orgulha nessa trajetória até aqui?

Esse esforço é feito pelo voluntariado há muito tempo. Há mais de 20 anos, na região do Rio de Janeiro, o pessoal da Trilha Transcarioca começou a desenvolver um percurso todo sinalizado, e essa ideia pegou. A oportunidade de padronizar as trilhas do Brasil é muito importante para reforçar a marca Trilhas do Brasil. Essa sinalização padronizada talvez seja o que mais me dá orgulho nessa trajetória, porque garante uma unicidade e, ao mesmo tempo, o pertencimento local de cada trilha. As pegadas amarelas e pretas asseguram a marca Trilhas do Brasil — a gente reconhece que qualquer uma daquelas trilhas é no Brasil — e, junto com isso, carregam um elemento do patrimônio natural e cultural de cada região, o que preserva a individualidade de cada percurso. Isso é maravilhoso e é motivo de orgulho.

Além da identidade visual, o que a sinalização padronizada representa em termos de segurança para quem caminha?

Além de dar unicidade ao território nacional, a sinalização garante muito mais segurança para o visitante. Trilhas bem sinalizadas, com plataformas de informação, arquivos em KML e GPX e indicação de onde estão os serviços, oferecem uma experiência de muito mais qualidade. E essa identidade na trilha gera uma sensação de pertencimento incrível: cada elemento do patrimônio natural e cultural da região está ali representado, e isso faz com que as pessoas reconheçam aquele território. É muito importante para fortalecer o destino turístico.

A lógica da cooperação entre territórios

Como funciona, na prática, essa lógica de cooperação entre os territórios que dividem uma mesma trilha?

Um princípio das trilhas da Rede Brasileira é o alinhamento com as políticas públicas — federais, estaduais e municipais. Isso é importante para que todo mundo fale a mesma língua, ao mesmo tempo que a gente vai conectando paisagens, negócios, ideias e pessoas. No fim das contas, as trilhas são um grande ambiente de cooperação, em que todo mundo entende que está no mesmo barco e que o sucesso de um depende do sucesso do outro. As trilhas fortalecem esse sentimento de cooperação nos territórios.

Como as trilhas de longo curso alcançam municípios que estão fora dos circuitos turísticos?

Por serem percursos bem longos, as trilhas de longo curso passam por locais com atividade turística mais forte, mas também por áreas onde o turismo ainda é incipiente e os órgãos municipais ainda são frágeis. Com a trilha cruzando esses dois tipos de lugar, acontece uma desconcentração da atividade turística: produtos, municípios, regiões e comunidades que não estavam diretamente envolvidos passam a fazer parte, por causa das longas distâncias que a trilha percorre. Isso é maravilhoso, porque gera novos postos de trabalho ligados à conservação e ajuda a formar um grande corredor ecológico, com desenvolvimento territorial em bases mais sustentáveis.

Trilha Amazônia Atlântica, da pandemia aos Lençóis Maranhenses

Foto: Divulgação Rede Trilhas

A Trilha Amazônia Atlântica, que você idealizou, foi lançada na COP30. Como nasceu esse projeto?

A Trilha Amazônia Atlântica é um exemplo de trilha da Rede que nasceu do voluntariado. A gente começou a pensá-la em 2020, em meio à pandemia, com reuniões remotas, para criar um percurso de cicloturismo a partir de uma rota turística que já existia, de cerca de 300 quilômetros, de Belém a Bragança — um destino importante no litoral atlântico do Pará. Com o apoio e a recomendação do ICMBio, conseguimos desenhar uma trilha de quase 500 quilômetros: são 486 quilômetros por 17 municípios, de Belém até Viseu, na divisa com o Maranhão, na Serra do Piriá. O traçado foi desenhado a partir de 2025 e a sinalização foi lançada na COP30. Depois disso, atualizamos o percurso e, em parceria com o governo estadual e o ICMBio no Maranhão, conseguimos sinalizar até os Lençóis Maranhenses. Hoje a Trilha Amazônia Atlântica vai de Belém até os Lençóis Maranhenses: são mil quilômetros de circuito de cicloturismo já sinalizados. É a maior trilha sinalizada da América Latina, motivo de orgulho para todos nós.

Essa trilha também dialoga com a peregrinação do Círio de Nazaré. Como isso acontece?

Curiosamente, o traçado já está previsto para chegar a Belém, na região metropolitana, por uma área rural muito mais agradável para quem faz a romaria do Círio de Nazaré. Hoje, essa peregrinação acontece quase que exclusivamente pela BR, onde eventualmente vemos casos de atropelamento e de acidentes. Pela trilha, ela pode ser feita em ambiente natural e rural, com uma experiência mais imersiva, diferente do tradicional. Isso está em discussão na gestão da trilha. Todos os anos há eventos de peregrinação para o Círio, em Belém, em outubro, e agora também pela Trilha Amazônia Atlântica.

O que muda com o Sistema Nacional de Trilhas

Foto: Divulgação Rede Trilhas

Com o Sistema Nacional de Trilhas, o que muda na governança das trilhas?

Chegar ao Sistema Nacional de Trilhas representa um fortalecimento muito grande das trilhas no Brasil inteiro. Agora a gente vai ter um conselho e uma governança definida em decreto, de forma robusta. Essa governança vai envolver atores do governo federal, representantes estaduais, órgãos ligados ao meio ambiente e ao turismo, a iniciativa privada e, certamente, a Associação Rede Brasileira de Trilhas. Com todos esses atores na mesa, vamos poder discutir o desenvolvimento das trilhas e construir a Estratégia Nacional de Trilhas, que é um grande plano traçado por essa equipe, numa parceria entre administração pública, sociedade civil e iniciativa privada. E passa a existir a possibilidade de orçamento dos órgãos: hoje a gente vive basicamente de projetos, e agora vai poder ter um planejamento mais robusto, de longo prazo, prevendo ações estruturantes para o desenvolvimento das trilhas.

Qual é o papel da Associação na elaboração desse plano?

O papel da Associação é fundamental. A Associação Rede Brasileira de Trilhas é a grande organização que vem conduzindo isso desde o início, reunindo uma equipe de profissionais de altíssimo nível que colaboram voluntariamente com o desenvolvimento das trilhas. A nossa parceria com outras organizações da sociedade civil e com o governo federal, os estados e os municípios tem sido um fator de agregação muito importante para que a gente consiga desenvolver as trilhas em todo o Brasil.

O modelo se apoiou por anos no voluntariado. Como garantir a continuidade daqui para frente?

O voluntariado é fundamental nesse processo, é a grande força motriz do desenvolvimento das trilhas, mas ele também tem o seu limite, e o apoio da administração pública é essencial para garantir o sucesso das trilhas. Ao mesmo tempo, o voluntariado tem um papel importante na garantia de que o projeto se perpetue ao fim de cada ciclo de governo, o que é muito comum no Brasil. O que a gente tem visto é que, quando as trilhas de longo curso nascem em um território, os governos vão passando, mas, pelo fato de existir ali uma governança forte da sociedade civil administrando e tomando decisões, o projeto passa de governo para governo, de forma integrada à gestão municipal e estadual de cada território.

O futuro das trilhas brasileiras

Como você imagina as trilhas brasileiras daqui a dez anos?

Daqui a dez anos, a gente quer ver as trilhas conectadas. Quer ver um grande ambiente de cooperação, com todo o território nacional ligado por trilhas: todas as unidades de conservação, os territórios quilombolas, as terras indígenas, as comunidades rurais, toda essa diversidade cultural e natural do Brasil conectada por trilhas. Assim, caminhando, remando, vivendo, as pessoas vão poder conhecer a fundo cada um desses Brasis que existem dentro da nossa grande nação.

Instituído pelo decreto de 10 de junho, o Sistema Nacional de Trilhas terá suas metas definidas pela Estratégia Nacional de Trilhas, prevista para até 180 dias após a instalação do Comitê Nacional de Trilhas.

 

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