O que experiências paulistas de turismo inclusivo ensinam à gestão de destinos

Estudo da USP e do governo de São Paulo reúne práticas de acessibilidade que ajudam a rever a preparação das visitas, o atendimento e a participação dos públicos nas decisões

Em São Bernardo do Campo, a abertura de fábricas a visitantes com deficiência passa por visitas técnicas e testes dos roteiros. Em Santo André, a formação em Libras na Sabina Escola Parque do Conhecimento alcança profissionais da mediação, da manutenção e da limpeza. No Museu do Futebol, em São Paulo, pessoas com deficiência participam do desenvolvimento de recursos e da qualificação do atendimento.

As três experiências integram o projeto Turismo Inclusivo e Competitividade (TICo), desenvolvido pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), em parceria com as secretarias estaduais dos Direitos da Pessoa com Deficiência e de Turismo e Viagens. O levantamento identificou 308 iniciativas no estado, descreveu 70 em detalhe e aprofundou o estudo de 15 delas.

Para gestores de destinos, atrativos e empresas turísticas, o material permite conhecer como essas iniciativas foram organizadas, quais barreiras enfrentaram e que dificuldades ainda precisam resolver. Esse recorte ajuda a avaliar o que uma adaptação exige em termos de equipe, preparação e continuidade antes de tentar reproduzi-la em outro contexto.

Como as práticas foram estudadas

O levantamento inicial pesquisou 227 municípios, combinando buscas em fontes digitais e questionários enviados às secretarias municipais de turismo. O catálogo de iniciativas informa que a pesquisa não pretende ser um inventário exaustivo das ações existentes no estado.

A seleção passou por avaliações que consideraram, entre outros aspectos, relevância, possibilidade de adaptação a outros contextos e protagonismo dos públicos atendidos. No estudo das 15 experiências, a equipe combinou entrevistas, observação de atividades, análise documental e visitas técnicas. Pesquisadores, profissionais de acessibilidade, pessoas com deficiência e representantes da sociedade civil participaram do processo.

Esse percurso também delimita a leitura dos resultados: são experiências selecionadas por suas práticas e pela capacidade de oferecer referências. O reconhecimento de uma iniciativa não significa que ela tenha resolvido todas as suas barreiras de acessibilidade.

São Bernardo testa percursos e prepara as empresas

A Linha Inclusiva no Turismo Industrial foi criada em 2025 dentro de um programa municipal em funcionamento desde 2013. A estrutura já existente permitiu aproveitar relações com as empresas e a experiência acumulada na organização das visitas.

Segundo o estudo, a equipe municipal realiza visitas prévias e testa os roteiros antes de consolidar as parcerias. O planejamento considera as características de cada fábrica, as distâncias a percorrer e as condições de segurança. Na Scania, por exemplo, os deslocamentos entre áreas podem combinar ônibus elétrico rebaixado e trechos a pé. Os participantes recebem orientações sobre o percurso e as regras da visita.

Foto: Omar Matsumoto/PMSBC – Linha Inclusiva no Turismo Industrial, São Bernardo do Campo/SP

A Prefeitura de São Bernardo do Campo apresentou a linha como uma ampliação do acesso às visitas técnicas, incluindo pessoas com deficiência e estudantes da rede municipal. Em abril de 2025, registrou a realização de uma visita guiada e adaptada à Scania com estudantes autistas da Escola de Educação Especial GAPI.

O relatório contabiliza 11 visitas e 274 participantes na Linha Inclusiva em 2025. Registra, porém, que o programa ainda não dispõe de indicadores para medir sistematicamente mudanças de longo prazo. Para outros destinos, o caso oferece uma referência de organização e também uma questão de avaliação: além de contar participantes, como acompanhar a qualidade e as condições da experiência?

Na Sabina a formação acompanha a circulação do visitante

Na Sabina, em Santo André, a preparação das equipes considera que o público circula livremente e pode pedir uma informação a qualquer funcionário. Por isso, a formação em Libras envolve diferentes setores. O estudo informa que o curso é coordenado por uma profissional surda e planetarista do educativo, que também participa das decisões de comunicação da instituição.

A Prefeitura de Santo André descreve recursos como simuladores adaptados, audiodescrição, constelações táteis e iluminação para a apresentação em Libras no Planetário Johannes Kepler. Em abril de 2026, o espaço também inaugurou um ambiente de acolhimento sensorial.

A experiência permite observar a relação entre recursos instalados e capacidade de atendimento. Um visitante pode precisar de uma explicação durante um experimento ou de orientação no meio do percurso. A formação de profissionais de diferentes áreas amplia os pontos em que essa comunicação pode acontecer.

Foto: Alex Cavanha/PSA – Sabina, Santo André/SP

O estudo também registra desafios: a rotatividade exige capacitação contínua, e a ausência de registros mais completos sobre o público com deficiência dificulta dimensionar demandas e orientar investimentos. São questões de gestão que permanecem mesmo em uma instituição reconhecida por suas práticas.

No Museu do Futebol o público participa da criação

O Projeto Deficiente Residente, iniciado em 2010 pelo Museu do Futebol, aproxima pessoas com deficiência da rotina da equipe. De acordo com a instituição, os residentes contribuem para aprimorar recursos de acessibilidade, desenvolver jogos educativos e ajustar o espaço expositivo.

Foto: Divulgação Projeto Deficiente Residente – São Paulo/SP

Essa participação aparece também na produção de conteúdos. Ao apresentar o encontro Acesso em Campo, em março de 2026, o museu destacou a atuação de pessoas surdas na roteirização e na produção de materiais em videolibras. Entre os recursos apresentados estava ainda o audioguia com audiodescrição “Futebol é Mais”, concebido em formato de programa de rádio.

O caso oferece uma referência para atrativos que contratam recursos de acessibilidade: a participação dos usuários pode integrar a concepção do conteúdo, a linguagem escolhida e sua avaliação. Para a gestão, isso implica definir como essas pessoas serão envolvidas, em quais etapas e com que condições de trabalho.

Da referência ao planejamento do destino

A Lei Brasileira de Inclusão assegura, em seu artigo 42, o direito da pessoa com deficiência ao turismo, à cultura, ao esporte e ao lazer em igualdade de oportunidades. A aplicação desse direito envolve decisões que atravessam a organização de uma visita e os serviços utilizados para realizá-la.

Como o Turismo Spot já discutiu ao abordar a acessibilidade no turismo, informação, atendimento e manutenção precisam acompanhar as condições de acesso aos espaços. Os casos paulistas detalham formas de organizar parte desse trabalho e ajudam a formular perguntas para o planejamento local.

Ao avaliar uma prática para seu destino, gestores podem investigar qual barreira ela enfrenta, quem participou da solução, quais recursos sustentam sua operação e como o atendimento é acompanhado. A existência de orçamento, responsáveis e formação contínua merece a mesma atenção dada à aquisição de um equipamento.

Também cabe à gestão articular os serviços que compõem a visita. Um atrativo com recursos acessíveis precisa comunicar suas condições aos canais de informação e às empresas que organizam os roteiros. Transporte, horários e regras de agendamento podem determinar se o público conseguirá utilizar o que foi preparado.

As publicações do TICo estão disponíveis gratuitamente na página do projeto no NEAT-USP. O catálogo “Iniciativas que inspiram” apresenta 70 experiências, enquanto o “Estudo de boas práticas” aprofunda 15 casos, com seus processos, aprendizados e desafios. Para quem planeja investimentos ou revê a operação de um serviço, a consulta permite conhecer as condições que sustentam cada solução antes de adaptá-la.

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