O Brasil fechou 2025 com 2,39 milhões de pessoas formalmente empregadas no setor. No mesmo período, a hotelaria registrou turnover acima de 50%. Entender essa equação é cada vez mais estratégico para quem planeja o turismo no país.

 

O turismo brasileiro encerrou 2025 em ritmo de expansão consistente. Foram 1,9 milhão de admissões com carteira assinada ao longo do ano, com saldo positivo de mais de 80 mil novos postos formais, segundo o Novo Caged, analisado pelo Ministério do Turismo. Em fevereiro de 2026, o estoque total de trabalhadores formais no setor chegou a 2,39 milhões — 68 mil a mais do que no mesmo período do ano anterior. Segundo o WTTC, o turismo já representa 7,9% de todos os empregos do país, com projeção de alcançar 9,3% até 2035.

Foto: Embratur

Esses números convivem, porém, com um dado que revela outro lado da mesma história. Em 2025, o turnover na hotelaria brasileira superou 50%, segundo pesquisa da CAPIH — Comissão dos Administradores de Pessoal da Indústria Hoteleira, que monitora o setor há mais de quatro décadas. O dado significa que mais da metade dos quadros de funcionários de muitos hotéis foi renovada ao longo de um único ano. Orlando de Souza, presidente-executivo do FOHB — Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil —, apontou a carência de mão de obra qualificada como o principal entrave operacional de 2025, acima de ocupação e tarifas.

Compreender essa tensão — mais empregos criados de um lado, mais dificuldade para reter e qualificar trabalhadores do outro — é hoje uma das questões centrais para quem pensa o desenvolvimento do turismo brasileiro. Além disso, o tema ganhou ainda mais relevância com o avanço do debate legislativo sobre a escala 6×1, que chegou a um ponto concreto na última semana.

73% das empresas hoteleiras relatam dificuldade em encontrar profissionais com o perfil desejado, segundo levantamento publicado em dezembro de 2025 com dados da LCA 4 intelligence.

Um desafio que vai além do Brasil

A escassez de mão de obra qualificada no turismo não é uma questão exclusivamente nacional. Em outubro de 2025, durante o 25º Global Summit do WTTC em Roma, o conselho apresentou o relatório Future of the Travel & Tourism Workforce com uma projeção expressiva: até 2035, a demanda global por trabalhadores no turismo vai superar a oferta em mais de 43 milhões de pessoas — o equivalente a 16% abaixo do necessário. Na hotelaria especificamente, o déficit estimado é de 8,6 milhões de profissionais, cerca de 18% a menos do que a demanda prevista.

O relatório, desenvolvido com contribuições do Ministério do Turismo da Arábia Saudita, da Coraggio Group, da Miles Partnership e da Universidade Politécnica de Hong Kong, analisou 20 grandes economias. A principal conclusão é que o problema tem raízes estruturais: poucas pessoas entrando no setor, ainda menos permanecendo. As funções operacionais — justamente as que mais dependem de presença física e interação humana — são as mais afetadas, com necessidade estimada de mais de 20 milhões de trabalhadores adicionais nessa categoria.

No Brasil, o contexto é agravado por um mercado de trabalho que opera próximo ao pleno emprego. Com mais pessoas ocupadas e menos disponíveis para novas vagas, a competição por talentos entre setores se torna mais acirrada. Segundo a Pesquisa de Escassez de Talentos 2025 do ManpowerGroup, 81% das empresas brasileiras relatam dificuldade para contratar profissionais qualificados — acima da média global de 74% e em patamar que se mantém estável desde 2021, quando o índice saltou de 34% para 71% em um único ano por efeito da pandemia.

Foto: Turiasmo 360m Consultoria

O que a pandemia deixou no mercado de trabalho do setor

A pandemia acelerou um processo que já estava em curso. Com o fechamento de hotéis, restaurantes e operadoras entre 2020 e 2021, uma parcela significativa dos profissionais do turismo foi demitida — e, na retomada, não voltou. Migrou para áreas com jornadas mais equilibradas, remuneração mais competitiva ou maior flexibilidade. Para o consultor de hotelaria Gustavo Nogales, em análise publicada pela Revista FT em novembro de 2025, os motivos são diretos: migração para setores com melhor remuneração, carga horária mais equilibrada, benefícios concretos e maior reconhecimento profissional.

Pesquisa conduzida com gestores hoteleiros de Foz do Iguaçu, um dos maiores destinos turísticos do país, identificou a falta de qualificação ou treinamento adequado como a principal razão para a escassez, apontada por 68,8% dos respondentes. Logo atrás aparecem remuneração e benefícios insuficientes (43,8%) e a própria rotatividade elevada — que cria um ciclo difícil de romper: a dificuldade de reter profissionais reduz o interesse dos melhores candidatos pelo setor, o que eleva ainda mais o turnover.

Há também uma mudança de expectativas nas gerações mais jovens de trabalhadores. Millennials e Geração Z — que já compõem mais da metade da força de trabalho global — avaliam de forma mais criteriosa a relação entre jornada, salário, perspectiva de crescimento e qualidade de vida. Num setor historicamente associado a escalas longas e dinâmicas operacionais presenciais intensas, a adequação a esse novo perfil de profissional é um processo em andamento, ainda desigual entre grandes redes, hotéis independentes e negócios de pequeno porte.

Segundo o WTTC, entre 2026 e 2035, um em cada três novos empregos criados no mundo será no turismo. A pergunta que o setor precisa responder é como garantir que esses postos sejam preenchidos e mantidos.

A escala 6×1 no centro do debate

Nenhuma análise sobre as condições de trabalho no turismo brasileiro pode ser feita hoje sem mencionar o avanço legislativo sobre a escala 6×1. Na quarta-feira, 22 de abril de 2026, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou, por unanimidade em votação simbólica, a admissibilidade da PEC que propõe o fim da escala de seis dias trabalhados por um de descanso. A proposta segue agora para análise em comissão especial, onde serão discutidos o mérito, os impactos econômicos e os possíveis modelos de transição. O presidente da Câmara, Hugo Motta, mantém a projeção de levar o tema ao plenário até o fim de maio.

Paralelamente, o governo federal enviou ao Congresso, em 14 de abril, um projeto de lei com urgência constitucional para reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas. As duas vias tramitam simultaneamente, com diferenças de rito e de abrangência que ainda serão definidas na comissão especial.

Para o turismo, a mudança tem implicações específicas. Hotéis, restaurantes, parques temáticos, cruzeiros e empresas de receptivo operam sete dias por semana, em regime contínuo. Por isso, a escala 6×1 se consolidou historicamente como padrão nessas operações, especialmente em recepção, governança, cozinha e alimentos e bebidas. A reorganização desse modelo exige reestruturação de turnos, possível ampliação de equipes e revisão de custos — com impacto diferente para grandes redes e para estabelecimentos independentes de menor porte.

A FecomercioSP estimou que uma redução de jornada para 40 horas pode elevar o custo da folha do turismo em R$200,5 milhões ao ano. Em um cenário de 36 horas, esse número sobe para R$672,7 milhões. A CNC, por sua vez, projeta um impacto de R$235,7 bilhões anuais para o setor de serviços como um todo, com base em dados da RAIS/IBGE. Esses números foram apresentados ao Congresso em audiência pública realizada pela Comissão de Turismo da Câmara em abril, com participação de ABIH-SP, FOHB e Resorts Brasil.

O que o setor levou a Brasília não foi uma oposição à pauta, mas a solicitação de que as especificidades operacionais do turismo sejam consideradas nas regras de transição. A diferença entre uma grande rede hoteleira e um hotel independente numa cidade de interior é enorme — e uma regulação construída sem esse olhar pode ter efeitos muito desiguais.

O que já está mudando antes da lei

Ainda antes de qualquer definição legislativa, uma movimentação já estava em curso. Em maio de 2025, o Copacabana Palace — pertencente ao Grupo Belmond, da LVMH — implantou a escala 5×2 para cerca de 90% de seus 600 funcionários, nas áreas de governança, alimentos e bebidas, cozinha e hospedagem. Guillaume Lemarchand, diretor de Recursos Humanos do hotel, explica a razão: ‘O foco do 5×2 é bem-estar, equilíbrio e saúde mental. A autenticidade do serviço depende das pessoas, e para manter essa excelência, precisamos cuidar delas.’

Em outubro do mesmo ano, o Palácio Tangará, em São Paulo, seguiu caminho semelhante. Após assembleia realizada em agosto — com 89% dos 350 funcionários votando a favor —, o hotel da Oetker Collection adotou o 5×2 para todo o quadro, reduziu a jornada semanal de 44 para 42 horas e contratou 27 novos funcionários para sustentar a operação. O investimento anual previsto para o pacote é de R$2 milhões. Redes como Blue Tree Hotels e Hplus Hotelaria também testam modelos alternativos em diferentes unidades.

Esses casos ilustram que a mudança é viável — e que hotéis que avançaram nessa direção chegam ao debate legislativo com dados concretos sobre custos, impactos operacionais e efeitos na retenção de equipes. Esse conhecimento tende a ser cada vez mais relevante tanto para decisões internas quanto para a interlocução com o Congresso nos próximos meses.

Copacabana Palac, RJ. Foto: Embratur

Formação: o outro lado da equação

A questão da mão de obra no turismo tem, além das condições de trabalho, uma dimensão de formação que merece atenção paralela. Apenas 30% dos trabalhadores do setor têm mais de dez anos de escolaridade, segundo levantamento do IBGE — reflexo de uma cadeia historicamente abastecida por profissionais sem qualificação técnica específica para a área.

Há sinais de retomada do interesse pela formação profissional no setor. Entre o primeiro semestre de 2024 e o mesmo período de 2025, o Senac registrou crescimento de 53% nas matrículas em cursos de hotelaria — de 568 para 851 alunos em uma de suas unidades de referência. O dado é pontual, mas indica que o interesse pela área cresce à medida que o setor volta a oferecer perspectivas concretas de carreira. Para 87% das operadoras de turismo da Braztoa, os custos relacionados à mão de obra já são hoje um fator crítico para a competitividade — o que torna a qualificação não apenas uma questão de formação, mas de sustentabilidade do negócio.

O WTTC recomenda, em seu relatório, que o setor fortaleça as parcerias entre instituições de ensino e empresas, invista em letramento digital como parte da formação de base e reduza barreiras para o recrutamento internacional em funções específicas. Para o Brasil, onde o mercado doméstico ainda é o principal reservatório de talentos do turismo, o foco em qualificação profissional contínua segue como a principal alavanca disponível.

O cenário dos próximos meses

Com a PEC da escala 6×1 seguindo para comissão especial e um projeto de lei do governo tramitando em urgência constitucional, o turismo entra num período de definições trabalhistas que pode ser um dos mais relevantes para o setor em décadas. O relator da PEC na CCJ sinalizou que defenderá implementação gradual e avaliação de modelos intermediários, incluindo a jornada de 40 horas e a escala 5×2. A discussão sobre compensações para os setores mais afetados também deve ganhar espaço na comissão especial.

Para as empresas do setor, o momento pede planejamento antecipado. As que já estruturaram modelos alternativos de jornada chegam a esse processo com vantagem — tanto operacional quanto na disputa por profissionais qualificados. Num mercado que vai continuar crescendo e vai continuar disputando talentos com outros setores da economia, as condições de trabalho que o turismo oferece são, cada vez mais, parte da estratégia de negócio.

 

  1. WTTC — Future of the Travel & Tourism Workforce (out/2025) Notícia de lançamento: https://wttc.org/news/wttc-report-shows-travel-and-tourism-set-to-support-91mn-new-jobs-by-2035 Relatório no Research Hub (acesso mediante cadastro): https://researchhub.wttc.org/product/the-future-of-work-in-travel-tourism-the-key-trends-shaping-workforce-strategies
  2. Novo Caged / MTur — emprego formal no turismo, fev/2026 https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202601/turismo-brasileiro-fecha-2025-com-quase-1-9-milhao-de-contratacoes-em-todo-o-pais
  3. CAPIH / Hotelier News — turnover na hotelaria 2025 https://hoteliernews.com.br/hotelaria-enfrenta-turnover-superior-a-50-em-2025
  4. FOHB + HotelInvest — Panorama da Hotelaria Brasileira 2025 https://fohb.com.br/vii-forum-nacional-da-hotelaria-2025 PDF do relatório: https://www.mercadoeeventos.com.br/wp-content/uploads/2025/05/Panorama-da-Hotelaria-Brasileira-2025-HotelInvest-FOHB.pdf
  5. ManpowerGroup — Pesquisa de Escassez de Talentos 2025 https://www.manpowergroup.com.br/insights/estudos/pesquisa-de-escassez-de-talentos-2025
  6. FecomercioSP — impactos da redução de jornada no turismo https://www.fecomercio.com.br/noticia/extincao-da-escala-6×1-ameaca-folha-precos-e-empregos-no-turismo
  7. Mercado & Eventos — O que o fim da escala 6×1 significa para o turismo (fev/2026) https://www.mercadoeeventos.com.br/brasil/mais-folga-mais-custo-o-que-o-fim-da-escala-6×1-significa-para-o-turismo
  8. Revista FT / Nogales, G. (2025): Hotelaria em Alerta — Falta de Mão de Obra em Foz do Iguaçu — https://revistaft.com.br/hotelaria-em-alerta-falta-de-mao-de-obra-em-foz-do-iguacu
  9. Agência Brasil — aprovação da PEC 6×1 na CCJ da Câmara (22 abr/2026) https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-04/ccj-aprova-admissibilidade-de-propostas-que-acabam-com-escala-6×1
  10. Revista Hotéis — Risco de apagão de mão de obra na hotelaria (ago/2025) https://www.revistahoteis.com.br/risco-de-apagao-de-mao-de-obra-na-hotelaria-e-real-e-iminente
  11. Exame — Copacabana Palace adota escala 5×2 (dez/2025) https://exame.com/carreira/copacabana-palace-cria-escala-5×2-para-cerca-de-600-funcionarios
  12. Braztoa / Sprint Dados — custos de mão de obra nas operadoras (2025) https://www.mercadoeeventos.com.br/noticia-manchete-home/turismo-em-2025-os-desafios-influencias-e-oportunidades-pela-visao-das-operadoras
  13. WTTC — dados de emprego no turismo brasileiro (7,9% do total) https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202512/turismo-atinge-8-2-milhoes-de-empregos-em-2025-e-representa-quase-8-do-total-das-vagas-do-brasil
COMPARTILHE: