Em setembro de 2025, o Brasil foi convidado a apresentar seu modelo de turismo inteligente na Semana do Turismo da Universidade de Ciências Aplicadas, em Lima, no Peru. A coordenadora-geral de Inovação do Ministério do Turismo, Bárbara Blaudt Rangel, levou o caso de Curitiba como exemplo de como tecnologia, governança e sustentabilidade podem caminhar juntas num destino turístico.
O convite não foi por acaso. O Brasil é o primeiro país da América Latina a desenvolver uma metodologia própria de Destinos Turísticos Inteligentes — o modelo DTI —, adaptada da experiência espanhola para a realidade nacional. Em setembro do mesmo ano, a ABNT publicou a norma técnica NBR 17259:2025, que estabelece requisitos para sistemas de gestão de DTI. São marcos concretos de um processo que começou em 2021 e que vem ganhando consistência.
O momento atual é de consolidação e expansão. O programa tem 21 municípios reconhecidos como DTI em Transformação e mais sete em processo de adesão. O desafio que o setor enfrenta — e discute abertamente — é como fazer essa agenda alcançar os destinos que ainda estão construindo as bases da gestão turística.

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O que o modelo DTI é, de fato
A sigla DTI — Destinos Turísticos Inteligentes — veio da Espanha, adaptada pelo Brasil a partir do modelo desenvolvido pela SEGITTUR. O Ministério do Turismo organizou a metodologia em nove eixos: governança, inovação, tecnologia, sustentabilidade, acessibilidade, promoção e marketing, segurança, mobilidade e transporte, e criatividade.
Receber o Selo DTI exige cumprir até 80% de um plano de transformação auditado. Existe um título intermediário — “DTI em Transformação” — para municípios que iniciaram o processo. Em janeiro de 2026, o Ministério publicou com o Instituto Cidades do Futuro e a Anseditur o relatório “Avanço do Modelo de Destinos Turísticos Inteligentes no Brasil”, o documento mais completo disponível sobre o estágio atual do programa.
O que fica claro tanto no relatório quanto na norma ABNT é que o modelo vai além de uma lista de tecnologias a contratar. Governança vem antes de qualquer ferramenta digital — e é justamente nesse eixo que o programa tem investido mais energia, apoiando municípios na estruturação de conselhos, planos e sistemas de monitoramento.
Os casos que mostram o caminho
Curitiba é a referência mais citada, e com razão. A capital paranaense ganhou o World Smart City Awards em 2023 — considerado um dos principais reconhecimentos mundiais em inovação urbana — e construiu ao longo dos anos uma estrutura de governança que permite que as iniciativas de turismo inteligente se sustentem além de mandatos específicos.
Gramado, Foz do Iguaçu e Bonito seguiram caminhos próprios para chegar à certificação DTI em Transformação. São destinos com vocações turísticas consolidadas que encontraram no programa uma forma de qualificar a gestão do que já funcionava bem.
Porto Velho apostou numa entrada diferente. A capital rondoniense lançou a MarIA, um sistema de inteligência artificial desenvolvido para funcionar como assistente de informações turísticas, capaz de sugerir pontos, roteiros e atividades de acordo com o perfil do usuário. É uma solução de menor custo de entrada que não exige toda a estrutura do ciclo completo de certificação — e que mostra que há espaço para caminhos variados dentro da mesma agenda.

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No Paraná, a Federação das Instâncias de Governança Regional do Turismo (Feigtur-PR) fechou parceria com a plataforma Wikitravel.ai para reunir dados turísticos de mais de 300 municípios em um único ambiente digital, tornando-se o primeiro estado a integrar o inventário de suas 18 instâncias regionais em uma base padronizada e multilíngue. O anúncio foi feito durante o Smart City Expo Curitiba. O modelo desperta interesse de outros estados.
O Paraná reuniu dados de 300 municípios numa plataforma única. O movimento mostra que a escala regional pode ser o elo que falta entre o programa federal e a realidade dos pequenos destinos.
O contexto que explica o ritmo
O mercado global de smart tourism foi estimado em US$ 813 milhões em 2025 e deve crescer a 15% ao ano, segundo a Fortune Business Insights. Ferramentas estão mais acessíveis e os casos de uso se multiplicam. Ao mesmo tempo, implementar um modelo de gestão baseado em dados num município de pequeno porte envolve desafios que vão além da tecnologia disponível.
Pesquisas sobre gestão municipal documentam um conjunto de dificuldades estruturais: equipes técnicas enxutas que acumulam várias funções, rotatividade de profissionais a cada ciclo eleitoral e dificuldade de produzir e manter dados atualizados. No turismo, isso se reflete na baixa adesão de alguns municípios até mesmo ao Mapa do Turismo Brasileiro — ferramenta que é a porta de entrada para os programas federais, mas que exige que cada prefeitura alimente e atualize suas próprias informações.
Com a nova categorização do Mapa, que passou de 5 para 70 variáveis organizadas em 10 dimensões, a metodologia ficou mais precisa e representativa. Destinos com maior estrutura técnica conseguem aproveitar isso; para os menores, a exigência cresce junto com a sofisticação do instrumento. É um ponto que o setor já reconhece e que orienta parte das discussões sobre como apoiar esses municípios de forma mais direta.
Movimentos em andamento
Três frentes merecem acompanhamento nos próximos meses.
A primeira é o modelo de governança compartilhada em escala estadual, como o que o Paraná está desenvolvendo com a Wikitravel.ai. Quando um estado centraliza a estrutura de dados e deixa os municípios alimentarem as informações de seus territórios, o custo de entrada cai significativamente. O município menor não precisa montar uma infraestrutura própria — precisa de alguém capaz de operar uma plataforma existente.
A segunda é o Programa Turismo Futuro Brasil, do Sebrae em parceria com o BID, que selecionou 12 municípios de diferentes perfis e portes — incluindo Pirenópolis, Paraty, Ilhabela, Novo Airão e Penedo — para aplicar a estratégia DTI com suporte técnico direto. O acompanhamento dos resultados vai mostrar o que se aprende quando o modelo encontra contextos mais variados.
A terceira é mais difusa, mas talvez a mais determinante: secretarias municipais que estão criando, pela primeira vez, rotinas básicas de coleta de dados sobre seus visitantes. É o passo anterior a qualquer certificação — e em muitos lugares está acontecendo silenciosamente, fora dos programas formais.

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Para onde a agenda aponta
O modelo DTI brasileiro é reconhecido internacionalmente, o convite ao Peru é um sinal disso, assim como a publicação da norma ABNT em 2025. A base técnica está construída. O que está em curso agora é o trabalho mais complexo: fazer com que essa base chegue a destinos que têm vocação turística real, mas que ainda precisam desenvolver a capacidade de gestão para aproveitá-la.
Os programas em andamento, as iniciativas estaduais e os casos como Porto Velho indicam que o campo está se diversificando, que há mais de um caminho possível, e que esses caminhos estão sendo percorridos. O turismo brasileiro acontece em milhares de municípios. A agenda de turismo inteligente tem muito território pela frente.
Fontes e referências




