Neste 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, o turismo regenerativo ganha espaço no Brasil: a evolução do turismo sustentável que a COP30 ajudou a trazer para o centro da mesa.
Toda viagem começa com uma paisagem: uma praia, uma trilha na mata, o casario de uma cidade histórica. O que nem sempre aparece no roteiro é que essa paisagem, a matéria-prima do turismo, também é um sistema vivo e finito. É justamente essa relação que o Dia Mundial do Meio Ambiente coloca em evidência a cada ano.
A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas em 1972 e, desde então, é celebrada anualmente em 5 de junho, como nesta sexta-feira. Para o turismo, ela funciona menos como efeméride de calendário e mais como um convite a olhar com seriedade para a relação do setor com o meio ambiente, nos 365 dias do ano.
Um tema que conversa com o setor

Foto: Embratur Sebrae
A edição deste ano tem um recorte que dialoga diretamente com a agenda do turismo. O tema oficial é “Inspirados pela Natureza. Pelo Clima. Pelo Nosso Futuro”, com a campanha de hashtag #NowForClimate conduzida pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). A comemoração global de 2026 é sediada pelo Azerbaijão, na capital Baku.
A mensagem central da campanha é que a natureza não é um detalhe opcional, mas peça-chave para a resiliência climática: uma “solução climática de linha de frente”, na formulação da ONU. Florestas, oceanos e zonas úmidas são tratados como estoques de carbono e como aliados contra eventos extremos. Para um setor que depende de praias preservadas, florestas em pé e cidades habitáveis, o tema funciona como um espelho.
O paradoxo de quem vive da natureza
Aqui está a tensão que organiza boa parte do debate atual: o turismo precisa de ecossistemas saudáveis para existir, mas a própria atividade pode pressioná-los. O fenômeno do overtourism, a concentração de visitantes acima da capacidade de um destino, é um exemplo recorrente citado por especialistas, assim como a pressão sobre áreas naturais frágeis e a distribuição desigual dos benefícios gerados pela visitação.
Reconhecer esse paradoxo não é apontar vilões, e sim qualificar a conversa. O setor é diverso, com uma cadeia de valor longa, e os impactos variam enormemente de um destino para outro. O ponto de partida honesto é admitir que a sustentabilidade no turismo deixou de ser diferencial de marketing para se tornar condição de operação no médio prazo.
Da sustentabilidade à regeneração
Nos últimos anos, um conceito vem ganhando espaço nas discussões técnicas: o turismo regenerativo. A diferença em relação à sustentabilidade tradicional é de ambição. Enquanto a lógica sustentável busca, sobretudo, minimizar danos e garantir que os recursos cheguem às próximas gerações, a abordagem regenerativa propõe ir além: deixar o destino, o ecossistema e a comunidade em condição melhor do que se encontravam antes da visita.
Na prática, isso significa pensar a visitação como vetor de conservação e de geração de renda local, e não apenas como volume de turistas. Envolve medir resultados (o que de fato melhorou no território e na vida das pessoas?), valorizar comunidades tradicionais e tratar o meio ambiente como ativo a ser cultivado, não consumido. É um caminho ainda em construção, com mais perguntas do que respostas prontas — o que o torna, justamente, um bom tema de debate.

Foto: Embratur Sebrae
O Brasil e o legado da COP30
O debate chega ao Dia Mundial do Meio Ambiente de 2026 com um capítulo brasileiro recente e relevante. Em novembro de 2025, Belém sediou a COP30, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, apontada como o maior encontro climático já realizado no país, reunindo delegações de cerca de 200 países. A conferência terminou em 21 de novembro com a aprovação do chamado “Pacote de Belém”, que reuniu dezenas de decisões referendadas pelas Partes.
Para o turismo, a conferência teve efeito duplo. De um lado, projetou a Amazônia e a capital paraense no mapa internacional: o Ministério do Turismo estimou que o evento levou cerca de 60 mil visitantes a Belém e apontou aumento do interesse por ecoturismo, turismo de aventura e sustentabilidade. O ministro Celso Sabino chegou a definir a cidade como “porta de entrada da Amazônia”. O turismo sustentável foi tratado como eixo estratégico, com iniciativas como o Catálogo de Experiências COP30, que reuniu roteiros ligados a comunidades locais.
Por outro lado, o legado de um megaevento é sempre objeto de avaliação. Pesquisa divulgada à época apontou que a maioria dos paraenses — 72,6% — acreditava que os investimentos deixariam um saldo positivo para Belém. Mas a literatura sobre grandes eventos mostra que o desafio real aparece depois das luzes se apagarem: transformar infraestrutura e visibilidade pontuais em benefícios duradouros e bem distribuídos. É um debate legítimo e em aberto, que o setor acompanha de perto.

Foto: Embratur Sebrae
O que muda na prática e quem precisa agir
Se a regeneração é o horizonte, ela não acontece sozinha. Depende de gestão pública qualificada, planejamento e governança dos destinos: ordenamento da visitação, fortalecimento de unidades de conservação, envolvimento das comunidades nas decisões e mecanismos para repartir os ganhos econômicos. Depende também do trade, operadores, meios de hospedagem e agências, disposto a tratar critérios ambientais como parte do produto, e não como verniz.
Há ainda uma dimensão de imagem. Com seus biomas e sua biodiversidade, o Brasil tem um ativo de place branding invejável no mercado global. Convertê-lo em reputação consistente exige coerência entre o que se promete e o que se entrega: o oposto das práticas que prometem “verde” no folder e não sustentam a história no destino.
Mais que uma data
O valor de uma efeméride como o 5 de junho está em concentrar atenção. O risco é tratá-la como obrigação de calendário, com post comemorativo e silêncio nos outros 364 dias do ano. Para o turismo, o convite é mais exigente: usar a data para revisar processos, medir impactos e decidir que tipo de relação o setor quer construir com a natureza da qual depende.
A boa notícia é que turismo e meio ambiente não precisam ser adversários. Bem planejada, a atividade pode ser uma ferramenta eficiente de conservação e de desenvolvimento local. A pergunta que fica para o setor não é se esse caminho é possível, mas sim se a cadeia do turismo está disposta a atuar para que o tema deixe de ocupar um espaço periférico e se torne prioridade – do planejamento e investimento público à operação privada, das grandes empresas aos pequenos empreendedores.




