Como a articulação entre trade, poder público e comunidade sustenta um dos principais destinos de turismo de aventura do país.

Brotas é conhecida há anos como a capital nacional do turismo de aventura, designação que circula em guias de viagem, campanhas e na memória de quem desceu o rio Jacaré-Pepira num bote de rafting. Por trás dessa imagem consolidada opera uma estrutura de articulação entre empresários, poder público e comunidade que quase nunca aparece na fotografia e que ajuda a explicar a permanência do destino no topo do segmento. Essa estrutura tem nome e CNPJ: o ABROTUR, a Associação das Empresas de Turismo de Brotas e Região.

A história do ABROTUR interessa a quem pensa políticas públicas de turismo porque mostra, em escala municipal, como um arranjo de governança se constrói e se mantém ao longo de duas décadas. O ponto de partida foi o programa Empreender, conduzido pela Associação Comercial de Brotas em parceria com o Sebrae a partir de meados dos anos 2000. A lógica do Empreender reúne micro e pequenas empresas de um mesmo segmento em núcleos setoriais, e em Brotas o turismo se firmou como o setor mais promissor desse desenho.

Do núcleo do Sebrae a uma associação autônoma

Foto: Embratur Sebrae

O núcleo setorial de turismo adotou como diretriz um tripé que se tornaria a espinha dorsal do modelo: iniciativa privada, governo local e comunidade. Durante os quatro anos de apoio do Sebrae, o balanço apresentado pela própria associação registra uma média de 30 cursos por ano e cerca de 750 funcionários capacitados, além de visitas técnicas e da participação conjunta em feiras com o poder público. Quando o repasse do Sebrae se encerrou, em 2008, o grupo então conhecido como Brotas Brasil se formalizou no ABROTUR, com o objetivo de sustentar financeiramente o que havia sido construído e de estender a capacitação a toda a cadeia produtiva do turismo.

A formalização respondeu a um problema concreto e comum a tantos destinos: a fragilidade de iniciativas que dependem exclusivamente de fomento externo. Ao se transformar em associação, o núcleo deixou de depender do cronograma do Sebrae e passou a financiar a própria operação por meio de mensalidades e de eventos próprios.

Os instrumentos que transformaram articulação em política pública

A consolidação do turismo levou empresários do setor a ocuparem cadeiras estratégicas na cidade, do Conselho Municipal de Turismo (COMTUR) à própria Secretaria Municipal de Turismo, cuja criação contou com a força política do setor organizado. A participação no Plano Diretor e a criação do Fundo Municipal de Turismo (FUMTUR) completaram o desenho institucional. Para um destino de pequeno porte, ter representantes do trade nos espaços de decisão significou converter demandas difusas do setor em pauta de governo.

No plano estadual, Brotas integra o grupo de estâncias turísticas de São Paulo, classificação concedida pelo governo paulista a municípios com turismo consolidado, título que a cidade obteve em 2014. Esse status conecta a cidade ao DADETUR, departamento estadual que repassa recursos carimbados para infraestrutura turística, de pavimentação a saneamento. A permanência nesse circuito depende de obrigações que recaem sobre o município e sobre as empresas, como a atualização do Cadastur, o registro federal mantido pelo Ministério do Turismo cuja renovação condiciona o acesso a verbas e a presença do destino no mapa turístico nacional.

Voucher, dados e autonomia financeira

Em 2015, Brotas oficializou o voucher turístico, mecanismo que organiza a coleta de informações sobre quem visita a cidade e gera arrecadação destinada à melhoria da infraestrutura. A cada passeio ou hospedagem corresponde um voucher, e o valor arrecadado é repartido entre a gestão do sistema e um caixa de reinvestimento no destino. À ferramenta soma-se o uso do Geodata, sistema de inteligência que cruza dados de fluxo para dimensionar o público real do município, descontando do cálculo quem passa pela cidade sem ali pernoitar.

A independência em relação ao orçamento municipal é um traço deliberado do modelo. O ABROTUR se financia por mensalidades escalonadas conforme o porte da empresa, de R$ 103 a R$ 550, e por eventos próprios como o Broteco, festival gastronômico de baixo custo que reúne mais de vinte restaurantes; o Brotas Gourmet, criado em 2012 para enfrentar a baixa temporada; e o Natal Radical, que abre atividades de aventura gratuitas à população. Essa engenharia de receita permite à associação operar sem depender de repasse direto da prefeitura.

A comunidade como terceiro vértice

Foto: Embratur Sebrae

O vértice comunitário do tripé, historicamente o mais difícil de ativar, ganhou forma na carteirinha do Brotense, credencial digital que oferece a moradores descontos nos empreendimentos turísticos associados. A base soma hoje cerca de 3 mil cadastrados, com meta de chegar a algo entre 10 e 12 mil, e responde a um problema recorrente em destinos consolidados: a percepção, entre quem vive na cidade, de que o turismo encarece o cotidiano sem oferecer contrapartida. Ao dar ao morador uma vantagem concreta, a associação trabalha o pertencimento da comunidade ao próprio destino.

Para os associados, o esforço recente tem sido tornar mais palpável o retorno da filiação, com benefícios diretos como a negociação de patrocínio para os uniformes das equipes. É a resposta a um desafio que qualquer entidade associativa conhece, porque o trabalho de articulação costuma render frutos apenas no longo prazo, e manter os membros engajados exige entregar valor também no presente.

O que o caso de Brotas ensina

Hoje, segundo a associação, o ABROTUR reúne 64 associados e 31 empresas benfeitoras, um conjunto de 95 empresas que mantém uma diretoria voluntária renovada a cada dois anos, atualmente presidida por Marius Audry. A pauta da entidade segue ligada à formalização das experiências e aos sistemas de gestão de segurança previstos na legislação do setor, agenda que conecta o destino à normalização nacional do turismo de aventura conduzida pelo Ministério do Turismo e pela Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (ABETA).

A trajetória de Brotas mostra que a competitividade de um destino se constrói ao longo de décadas, na capacidade de manter um arranjo em que iniciativa privada, gestão pública e comunidade dividem responsabilidade e resultado, e de preservá-lo mesmo quando o cenário político ou econômico se altera. Para gestores e lideranças de outros destinos, o ABROTUR oferece um modelo concreto de como organizar essa convergência e, sobretudo, de como fazê-la durar.

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