A experiência de uma pessoa com deficiência ou mobilidade reduzida em um destino turístico começa muito antes de sua chegada. Antes de comprar uma passagem, reservar uma hospedagem ou escolher um atrativo, é preciso saber se existem condições adequadas de acesso, quais barreiras serão encontradas e que tipo de apoio estará disponível.
Essa informação ainda é difícil de encontrar em muitos destinos brasileiros. Expressões genéricas como “local acessível” ou a presença de um ícone de cadeira de rodas nem sempre respondem às questões práticas do visitante: como é o piso? Há desníveis? O banheiro é acessível? Qual é a distância entre o estacionamento e a atração principal? É necessário agendamento? Existe equipamento adaptado? O visitante precisa levar acompanhantes?
A acessibilidade no turismo passa por todas essas perguntas. Envolve infraestrutura, mas também comunicação, atendimento, manutenção, protocolos de visitação, capacitação e planejamento.
O desafio tem dimensão considerável. Segundo os resultados preliminares da amostra do Censo 2022, divulgados pelo IBGE, o Brasil tinha 14,4 milhões de pessoas com deficiência entre a população de 2 anos ou mais, o equivalente a 7,3% desse universo. Entre as pessoas com 70 anos ou mais, o percentual chegava a 27,5%.
Em escala mundial, a Organização Mundial da Saúde estima que 1,3 bilhão de pessoas vivam com deficiência significativa, cerca de 16% da população. O crescimento da longevidade torna a discussão ainda mais relevante para o turismo, já que necessidades relacionadas à mobilidade, visão, audição e outras condições funcionais tornam-se mais frequentes com o avanço da idade.
No Brasil, o direito de acesso ao turismo está previsto na Lei Brasileira de Inclusão. O artigo 42 da Lei nº 13.146/2015 estabelece o direito da pessoa com deficiência à cultura, ao esporte, ao turismo e ao lazer em igualdade de oportunidades com as demais pessoas.
Entre o direito assegurado pela legislação e a experiência concreta do visitante, porém, existe uma ampla agenda de trabalho para destinos, parques, atrativos e empresas turísticas.
A acessibilidade no turismo começa pela informação

Itawi Alburquerque/Prefeitura de Maceió
Um destino pode ter investido em rampas, equipamentos e rotas acessíveis e, ainda assim, perder visitantes porque essas condições não estão explicadas nos canais de comunicação.
Para quem precisa planejar uma viagem considerando barreiras de mobilidade, visão, audição ou outras necessidades específicas, informações vagas têm pouca utilidade.
Sites de destinos e atrativos podem incluir junto aos textos promocionais dados objetivos sobre estacionamento, acesso à entrada, tipo de piso, extensão dos percursos, inclinação, escadas, elevadores, banheiros, áreas de descanso e disponibilidade de equipamentos. Em atrativos naturais, informações sobre distância, duração da atividade, desnível, características do terreno, exposição ao sol e condições para utilização de recursos adaptados ajudam o visitante a avaliar a experiência.
Também é preciso fazer uso de ferramentas acessíveis nos próprios canais digitais. Vídeos com legendas, imagens acompanhadas de descrição adequada, linguagem clara, contraste e navegação acessível ampliam as possibilidades de acesso à informação.
O Guia Turismo Acessível, mantido no âmbito do programa do Ministério do Turismo, reúne consultas e avaliações sobre a acessibilidade de pontos turísticos, hotéis, restaurantes, parques e atrações. Seu caráter colaborativo permite que usuários avaliem locais e consultem condições registradas na plataforma.
Para os destinos, iniciativas desse tipo também mostram o valor de tornar a informação verificável. Em vez de resumir experiências complexas à palavra “acessível”, é possível apresentar condições concretas de visitação.
Infraestrutura precisa funcionar na rotina
A infraestrutura continua sendo uma dimensão central da acessibilidade. Rotas acessíveis, rampas, corrimãos, sanitários, circulação, mobiliário, sinalização e espaços reservados precisam seguir parâmetros técnicos adequados.
A ABNT NBR 9050:2020 estabelece critérios e parâmetros de acessibilidade relacionados ao projeto, à construção, à instalação e à adaptação de ambientes, edificações, mobiliário, espaços e equipamentos.
No turismo, essa discussão envolve hotéis e restaurantes, mas também centros de visitantes, museus, praças, parques, terminais, calçadas, centros históricos e outros espaços utilizados ao longo da viagem.
A existência de uma estrutura, porém, precisa ser acompanhada de manutenção e gestão. Uma rota obstruída, um elevador fora de operação ou uma informação desatualizada podem inviabilizar o acesso mesmo onde houve investimento.
Por isso, as condições de acessibilidade precisam entrar nas rotinas de vistoria, manutenção, limpeza, atendimento e atualização dos canais de comunicação.
A cadeira Julietti abriu novos caminhos nas áreas naturais

ONG Montanha Para Todos
Em parques e unidades de conservação, as condições do terreno trazem desafios particulares. Trilhas, desníveis, pisos irregulares, clima e distâncias, são elementos motivadores para o ecoturismo, porém exigem soluções adaptadas a cada ambiente e regras claras de operação quando pensamos em acessibilidade.
Um dos exemplos mais conhecidos no Brasil é a cadeira Julietti. A cadeira adaptada foi desenvolvida por Guilherme Simões Cordeiro para que sua esposa, Juliana Tozzi pudesse voltar a percorrer trilhas depois de enfrentar problemas de saúde que afetaram sua mobilidade.
A experiência deu origem ao Montanha para Todos e ajudou a disseminar o uso do equipamento em áreas naturais brasileiras.
Em 2021, uma iniciativa do então Ministério do Meio Ambiente entregou dez cadeiras Julietti a seis unidades: Parque Nacional da Chapada Diamantina, Fernando de Noronha, Floresta Nacional de Ipanema, Parque Nacional da Serra da Canastra, Parque Nacional da Serra do Cipó e Parque Nacional do Caparaó.
A entrega dos equipamentos ajuda a contar a trajetória de expansão da tecnologia assistiva em áreas naturais, mas o funcionamento de cada experiência depende da operação definida por cada unidade.
O Parque Nacional de Brasília é um exemplo. A página de visitação do ICMBio informa que a unidade disponibiliza cadeira Julietti para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida em diferentes percursos. As regras variam de acordo com a trilha.
Para utilizar o equipamento, o visitante deve estar acompanhado por pelo menos duas pessoas em condições físicas adequadas para sua condução. Em um dos percursos mais longos, o Arco Brasília, são necessários ao menos quatro acompanhantes para possibilitar o revezamento. O parque também informa que os acompanhantes devem fazer parte do próprio grupo do visitante e que a equipe da unidade não realiza a condução.
O caso mostra por que a simples presença de um equipamento não explica toda a experiência. É preciso informar onde ele pode ser usado, quem pode conduzi-lo, quais são as condições do percurso e como funciona a reserva.
A operação do Parque Nacional da Serra da Canastra apresenta outro modelo. Em protocolo de visitação publicado pelo ICMBio em junho de 2026, o parque informa que possui duas cadeiras adaptadas, localizadas em portarias diferentes, e sugere que o uso seja agendado com pelo menos cinco dias úteis de antecedência.
Em áreas naturais, portanto, a acessibilidade também é uma questão de desenho operacional.
A natureza pode oferecer diferentes formas de acesso
Criar experiências acessíveis em parques não significa aplicar a mesma solução em todas as trilhas e atividades. As possibilidades dependem das características ambientais, dos objetivos de conservação, do perfil dos visitantes e da estrutura disponível.
Há experiências brasileiras com trilhas suspensas, bosques e percursos sensoriais, cadeiras adaptadas e atividades interpretativas.
O Instituto Semeia, em conteúdo dedicado ao tema, cita possibilidades como trilhas sensoriais, percursos com cadeira Julietti, atividades ao ar livre, banho de mar com cadeira anfíbia e caminhadas interpretativas.
Em publicação anterior, a organização reuniu experiências em parques nacionais como Chapada dos Veadeiros, Serra dos Órgãos e Itatiaia. Os exemplos incluem uma trilha suspensa de 230 metros que chega às Corredeiras, na Chapada dos Veadeiros; uma passarela suspensa em meio à floresta na Serra dos Órgãos; e um bosque sensorial no Parque Nacional do Itatiaia.
Essas experiências ajudam a ampliar o repertório dos gestores. Dependendo do local, o avanço pode estar em um percurso curto com circulação adequada, em um mirante, em uma experiência sensorial, em um equipamento de tecnologia assistiva ou em um roteiro acompanhado.
Não existe uma única solução aplicável a todos os destinos. Existem diferentes barreiras e, portanto, diferentes decisões de planejamento.
Atendimento também faz parte da experiência
A acessibilidade no turismo também depende da relação entre equipes e visitantes.
Recepcionistas, guias, condutores, motoristas, profissionais de meios de hospedagem, restaurantes, parques e centros de informações turísticas precisam conhecer as estruturas e os recursos disponíveis para orientar o público.
O Ministério do Turismo mantém materiais voltados ao atendimento de turistas com deficiência ou mobilidade reduzida. O guia atualizado em 2023 reúne conceitos sobre acessibilidade e desenho universal, além de orientações relacionadas ao atendimento.
Para gestores de destinos, a capacitação pode começar por situações cotidianas: conhecer os recursos efetivamente disponíveis, saber explicar as condições do percurso, respeitar a autonomia da pessoa e evitar pressupostos sobre o tipo de apoio que ela necessita.
A qualidade do atendimento está diretamente ligada à qualidade da informação interna. Uma equipe que desconhece a existência de um equipamento, não sabe explicar a rota acessível ou oferece respostas diferentes em cada canal acrescenta novas barreiras à experiência.
O turismo acessível também entra na agenda de competitividade
O direito ao turismo é o fundamento dessa discussão, mas a acessibilidade também tem repercussões sobre o desempenho dos destinos.
Em 2024, a ONU Turismo voltou a defender o turismo acessível como uma oportunidade para destinos e empresas. A organização relacionou o segmento à melhora do desempenho nos períodos de média e baixa temporada, à atração de públicos diversos e fiéis, à geração de empregos e ao fortalecimento da reputação.
A análise ganha relevância diante do tamanho da população com deficiência e do envelhecimento populacional. Além da pessoa que encontra diretamente uma barreira de acesso, uma viagem costuma envolver acompanhantes, familiares e grupos cuja decisão também pode ser determinada pelas condições oferecidas pelo destino.
Para gestores públicos e privados, a acessibilidade pode ser considerada dentro das políticas de diversificação de demanda, qualificação da oferta e melhoria da experiência.
O argumento econômico, porém, não substitui o direito de acesso. Ele amplia as razões para que o tema deixe de ocupar um espaço periférico no planejamento turístico.
Por onde destinos e atrativos podem começar

Canva
Nem todos os destinos conseguirão eliminar todas as barreiras em curto prazo. Isso não impede a construção de uma agenda progressiva.
O primeiro passo é conhecer as condições existentes. O diagnóstico deve considerar barreiras físicas, comunicacionais, digitais, operacionais e de atendimento.
Depois, é preciso comunicar com precisão o que está disponível e quais são as limitações. A informação clara permite que cada pessoa avalie as condições da visita e tome suas decisões com maior autonomia.
A capacitação das equipes pode avançar em paralelo, principalmente nos pontos de contato direto com os visitantes. Também é importante incluir pessoas com deficiência na avaliação das experiências, já que uma análise feita apenas pela equipe gestora pode não identificar barreiras encontradas durante o uso real dos espaços e serviços.
Com essas informações, destinos e atrativos podem estabelecer prioridades de intervenção, responsáveis, recursos necessários e prazos para execução.
A acessibilidade passa, então, a fazer parte do planejamento e da operação cotidiana, com metas progressivas e avaliação das soluções implantadas.
Um roteiro inicial para a gestão da acessibilidade
Para organizar essa agenda, gestores podem trabalhar em quatro frentes complementares: infraestrutura, comunicação, atendimento e operação.
Na infraestrutura, entram as condições de circulação, os sanitários, os equipamentos, a sinalização, o mobiliário, o transporte e a segurança. Na comunicação, estão as informações publicadas nos sites, mapas, redes sociais, sistemas de reserva e canais de atendimento. O atendimento envolve o preparo das equipes, o conhecimento sobre os recursos disponíveis e a capacidade de oferecer orientações consistentes. Já a operação reúne manutenção, regras de uso, agendamentos, procedimentos de segurança e atualização periódica das informações.
Para destinos que ainda estão estruturando sua política de acessibilidade, o caminho pode começar pelo diagnóstico das barreiras existentes e pela escuta de quem vivencia essas barreiras na prática. A partir daí, é possível definir prioridades, responsabilidades, prazos e investimentos de forma progressiva.
O passo seguinte é tirar a acessibilidade do campo das iniciativas pontuais e incorporá-la às decisões regulares de planejamento e gestão. Isso significa rever a informação oferecida ao visitante, testar percursos e serviços, acompanhar a manutenção das estruturas, capacitar equipes e avaliar continuamente o que ainda precisa avançar.
Para os gestores de destinos e atrativos, a pergunta prática é simples: quais barreiras ainda impedem parte do público de chegar, circular, compreender as informações e participar das experiências oferecidas? Identificá-las é o ponto de partida. Transformar esse diagnóstico em uma agenda contínua de trabalho é o que permite avançar.




