Monte Verde, Serra Catarinense e Montanhas Capixabas mostram que o avanço do turismo de montanha tem menos a ver com fluxo espontâneo e mais com o arranjo institucional que organiza a oferta de cada região.
Quando um destino de montanha ganha projeção nacional, a leitura mais fácil é atribuir o resultado ao apelo da paisagem. A observação de três casos brasileiros recentes sugere um fator menos visível, porém mais determinante: o arranjo de governança que organiza a oferta, coordena setor público e privado e sustenta a promoção ao longo do ano. Monte Verde, na Serra da Mantiqueira, a Serra Catarinense e as Montanhas Capixabas ilustram três caminhos distintos para chegar a esse mesmo ponto.
Monte Verde: a agência de desenvolvimento regional

No distrito de Camanducaia, no Sul de Minas, a articulação passa por uma entidade própria. A MOVE (Agência de Desenvolvimento de Monte Verde e Região), criada no início de 2020, reúne hoje cerca de 160 associados de diferentes segmentos e coordena um calendário permanente de eventos, o que ajuda a diluir a sazonalidade típica dos destinos de inverno.
Segundo a Prefeitura de Camanducaia, o distrito registrou crescimento de 40% no número de visitantes nos últimos cinco anos e recebeu 1,25 milhão de turistas em 2025. Foi nesse contexto que Monte Verde foi eleito Melhor Destino de Inverno do Brasil na primeira edição do prêmio O Melhor do Turismo Brasileiro, promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo, à frente de Campos do Jordão e Gramado.
Serra Catarinense: a indução por investimento estatal

Foto: Edi Galvani Uliano / Wikimedia Commons
Em Santa Catarina, o motor é o investimento público direcionado. Segundo a Secretaria de Estado do Turismo, o governo estadual aplicou R$25,5 milhões em infraestrutura, sinalização turística e qualificação de destinos entre as edições de 2025 e 2026 da temporada de inverno. O aporte, de acordo com a pasta, ajudou a atrair mais de R$500 milhões em investimentos privados na região. O retorno também aparece no comportamento do visitante: o gasto médio por grupo chegou a R$3.550 em 2025, maior valor da série histórica iniciada em 2017, conforme levantamento da Fecomércio SC. É um modelo em que o Estado assume a dianteira e usa o recurso público como indutor do capital privado.
Montanhas Capixabas: parceria Sebrae e instância de governança regional

No Espírito Santo, o Sebrae-ES conduz o projeto Conexão Turismo Mata Atlântica, que estrutura a nova rota Caminhos da Mata Atlântica Capixaba, com lançamento oficial previsto para 13 de agosto, em Venda Nova do Imigrante. O projeto não parte do zero: encontra na região uma articulação de turismo já em curso, conduzida pelo Montanhas Capixabas Convention & Visitors Bureau, que reúne o empresariado local em torno de uma agenda comum. É esse arranjo que distingue o caso capixaba: aqui, o Sebrae atua em uma forte parceria com uma reconhecida instância de governança regional que o destino já vinha construindo.
O trabalho vai além de reunir atrativos. O projeto qualifica os empreendimentos, organiza a oferta em torno de uma identidade comum e projeta as Montanhas Capixabas como território de referência em turismo regenerativo. O que dá densidade ao caso é o ativo territorial: a região serrana concentra um corredor ecológico que conecta unidades de conservação públicas e privadas, como os parques estaduais da Pedra Azul e do Forno Grande e as reservas Águia Branca e Kaetés, base que sustenta produtos como a observação de aves e um programa de turismo científico ancorado na saíra-apunhalada, ave endêmica e criticamente ameaçada.
O que os três modelos têm em comum
As três regiões partem de instrumentos diferentes: uma agência associativa em Monte Verde, o investimento estadual na Serra Catarinense e a estruturação conduzida pelo Sebrae no Espírito Santo. Ainda assim, convergem em um mesmo princípio de gestão. Em todos os casos, há governança formalizada entre setor público e privado, foco em ampliar o tempo de permanência e o gasto do visitante, e uma preocupação em sustentar a atividade fora dos picos de temporada. Para o gestor público, a leitura é direta: o desempenho de um destino de montanha responde menos ao acaso da paisagem e mais à qualidade do arranjo que o organiza — o que torna esses modelos referências observáveis para outras regiões serranas do país.




