Na semana passada, uma campanha de arrecadação online criada para custear os imprevistos de uma pesquisa de doutorado virou motivo de piada nas redes sociais. Por trás do deboche, no entanto, uma discussão mais séria ganhou espaço: o desdém com a ciência tem um custo que ultrapassa o orçamento de um único pesquisador — e que afeta, entre outros setores, o turismo.

A protagonista da história é Talita Motta Beneli, bióloga e doutoranda em Ecologia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ela foi aprovada em primeiro lugar em um processo seletivo do seu Programa de Pós Graduação para receber uma bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) para um doutorado sanduíche na Austrália. Depois da conquista, porém, ela esbarrou em um obstáculo comum a muitos bolsistas brasileiros: a bolsa concedida pelo governo não cobre todas as despesas necessárias para embarcar. Faltavam cerca de R$ 8 mil para o pagamento de taxas de visto e exames obrigatórios, e ela não tinha de onde tirar esse valor.

Da ironia à reflexão

Diante da falta de alternativas, Talita organizou uma vaquinha simples, divulgada apenas para familiares, amigos e uma influenciadora cujo trabalho ela admirava. A ideia era discreta: se a meta não fosse atingida, o dinheiro arrecadado seria devolvido e ela desistiria da viagem.

O plano tomou outro rumo quando a influenciadora comentou publicamente um caso semelhante ao dela, sem citar seu nome, mas de um jeito que a pesquisadora reconheceu de imediato como referência à própria situação. A repercussão veio em forma de críticas: internautas classificaram o pedido como oportunismo, disseram que pesquisadores deveriam trabalhar para bancar os próprios sonhos e trataram a oportunidade acadêmica como se fosse uma viagem de lazer.

Essa leitura ignora um ponto central: um doutorado sanduíche não é turismo, é parte de um processo de formação científica com regras, prazos e produtos de pesquisa exigidos pelas instituições financiadoras. Mas o episódio, justamente por gerar tanto ruído, abriu espaço para uma conversa mais ampla  e necessária sobre como o país sustenta, ou deixa de sustentar, quem produz conhecimento.

O preço de fazer ciência com pouco dinheiro

Foto: Canva

Um dos pontos mais discutidos foi o valor das bolsas oferecidas pelas agências de fomento brasileiras. A bolsa de doutorado da Capes gira em torno de R$ 3.100 a R$ 3.400 mensais, patamar alcançado somente depois de reajustes concedidos em 2024, após anos de valores congelados. No caso específico do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE), a bolsa mensal é de cerca de US$ 1.300 — quantia que não recebe correção desde 2010. Bolsistas selecionados para o programa chegaram a assinar uma carta aberta ao governo federal pedindo revisão urgente dos valores, alegando que eles não acompanham o custo de vida nos países de destino.

Esse é o pano de fundo que explica por que tantos pesquisadores recorrem ao próprio bolso, a rifas, a bicos e a jornadas de trabalho duplas para viabilizar suas pesquisas. Não se trata de exceção, e sim de rotina em boa parte da pós-graduação brasileira, onde equipamentos, viagens de campo, taxas de publicação e até deslocamentos básicos frequentemente dependem de criatividade e sacrifício pessoal para acontecer.

Por que estudar recifes de coral importa — para a ciência e para o turismo

Atol das Rocas (RN), um dos locais em que a pesquisadora irá realizar seu estudo macroecológico. Foto: Sérgio R. Floeter

A pesquisa de Talita se debruça sobre peixes recifais, animais que cumprem funções ecológicas indispensáveis para a saúde dos recifes, como o controle de algas e a reciclagem de nutrientes. Entender como esses peixes se alimentam, e como isso muda diante de perturbações climáticas e da pressão de pesca, ajuda a compreender o funcionamento de um ecossistema que vai muito além do interesse acadêmico.

Recifes de coral cobrem menos de 1% do fundo dos oceanos, mas abrigam cerca de 25% de toda a vida marinha conhecida e sustentam a segurança alimentar de centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo, segundo o relatório Global Tipping Points 2025. No Brasil, estudos que avaliam o valor econômico da proteção costeira oferecida pelos recifes do Nordeste,  cerca de 170 km² de área recifal, estimam um benefício de aproximadamente R$ 160 bilhões em danos evitados, além de mais de R$ 7 bilhões gerados anualmente pelo turismo associado a esses ambientes. No plano global, o turismo ligado a recifes de coral movimenta cerca de US$ 36 bilhões por ano, de acordo com o Global Coral Reef Monitoring Network.

Ou seja: quando um recife perde biodiversidade, o impacto não fica restrito ao mar. Ele chega à mesa de quem vive da pesca artesanal, ao roteiro de operadoras de mergulho, à economia de cidades litorâneas inteiras.

O que a pesquisa de Talita investiga

Peixe Papagaio se alimentando. Foto: Sérgio R. Floeter

A pesquisa de Talita, orientada pelo professor Sergio Ricardo Floeter, tem como objetivo entender como a pressão alimentar dos peixes recifais, uma métrica que combina o número de mordidas e a biomassa de cada indivíduo por área e tempo — varia em diferentes escalas de espaço e tempo, considerando cenários de mudanças climáticas e de exploração pesqueira.

A expectativa da pesquisadora é que o aumento na frequência de ondas de calor marinhas tenha elevado as demandas metabólicas dos peixes recifais, fazendo com que eles precisem se alimentar mais para sobreviver, mas essa resposta deve variar bastante entre espécies, conforme suas estratégias alimentares e sua tolerância térmica.

Um planeta com a costa em alerta: o branqueamento dos corais 

Os dados globais reforçam a urgência do tema. Segundo o relatório Global Tipping Points 2025, o limite de aquecimento de 1,2°C, considerado crítico para os corais, já foi ultrapassado, e o branqueamento atingiu cerca de 84% das áreas de recifes do planeta entre 2023 e 2025, em 83 países. Em 2024, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) declarou o quarto evento global de branqueamento em massa desde que os registros começaram, em 1998.

No Brasil, a situação segue o mesmo padrão. De acordo com relatório citado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o Nordeste e as ilhas oceânicas brasileiras registraram taxas de branqueamento próximas ou superiores a 90%. Em Alagoas, pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas relataram a morte de mais de 90% das comunidades de coral monitoradas após a água do mar atingir 34°C durante um evento de El Niño. Em Maragogi, no mesmo estado, a mortalidade também superou os 80% em levantamentos recentes.

O fenômeno não afeta apenas os corais. O aquecimento dos oceanos vem acompanhado de acidificação da água, elevação do nível do mar e perda de oxigênio — mudanças que reduzem a capacidade dos recifes de se recuperarem entre um evento extremo e outro. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), um aquecimento global de 1,5°C pode significar a perda de 70% a 90% dos recifes de coral do mundo; a 2°C, o ecossistema corre risco de desaparecer quase por completo. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte descrevem um cenário em que a estrutura física dos recifes permanece, mas esvaziada de vida ,como cidades fantasmas debaixo d’água.

Quem é Talita Motta Beneli

Talita Motta em mergulho científico. Foto: Arquivo pessoal

A relação de Talita com o mar começou muito antes da carreira científica. Nascida em Barra Mansa, no Rio de Janeiro, e criada no interior do Paraná, ela sempre dividiu o encantamento entre os animais e a água, mesmo sem ter contato direto com a vida marinha na infância. No Ensino Médio, optou por cursar Biologia — não por ser a disciplina em que tirava as melhores notas, mas porque a paixão pelos bichos falou mais alto.

Ingressou na Universidade Estadual de Maringá em 2013, no mesmo dia em que completou 17 anos. Foi durante a graduação, ao ver uma propaganda do programa Ciência sem Fronteiras, que sua trajetória ganhou outro rumo. Sua primeira escolha de destino era Portugal, mas o excesso de inscritos a levou a repensar as opções. Entre países como Canadá, Estados Unidos e Alemanha, escolheu a Austrália, atraída pela chance de finalmente se aproximar da biologia marinha e por um clima parecido com o do Brasil.

Antes de embarcar, enfrentou um susto de saúde: a descoberta de um nódulo na mama e de micronódulos no pulmão, que a fizeram temer perder a viagem e iniciar um tratamento oncológico. Os exames posteriores mostraram que tudo era benigno, e ela seguiu para o intercâmbio.

Foi na James Cook University, em Townsville, com a Grande Barreira de Corais como cenário, que Talita teve o primeiro contato com corais e decidiu o caminho que queria seguir. De volta ao Brasil, fez estágio em Pernambuco, morando sozinha em Tamandaré para coletar dados de mergulho em apneia que se transformariam em seu trabalho de conclusão de curso. Depois, cursou o mestrado na Universidade Federal da Bahia, pesquisando corais-de-fogo em Salvador e os impactos das linhas de pesca sobre esses organismos — sempre lidando com a escassez de recursos que marca boa parte da pesquisa científica no país.

O sonho de retornar à Austrália para um doutorado esbarrou na pandemia, que fechou as fronteiras australianas e a levou a passar por demissão, seguro-desemprego, aulas de inglês e um período trabalhando na indústria farmacêutica em Florianópolis. As tentativas de conseguir uma vaga no exterior se acumularam sem sucesso até 2023, período em que ela chegou a colocar o sonho de lado por causa do desgaste emocional. Em 2025, ingressou no doutorado da UFSC, o primeiro projeto de sua carreira com financiamento de pesquisa garantido.

Meta batida: viagem a caminho

Depois da repercussão, a história de Talita chegou a comunicadoras científicas interessadas em entender quem era a pesquisadora por trás do pedido de ajuda e qual a relevância de seu trabalho. A partir daí, o cenário mudou: pessoas de diferentes regiões do Brasil passaram a contribuir com a campanha, que atingiu a meta em menos de 24 horas.

Hoje, Talita aguarda a aprovação final do visto australiano para embarcar. Se tudo correr como previsto, a viagem deve acontecer em setembro, quando ela dará início à etapa de coleta de dados em Ningaloo Reefs, na Edith Cowan University. Segundo relatou, o episódio trouxe também um retorno inesperado: mensagens de pessoas que decidiram voltar a estudar ou retomar planos de intercâmbio depois de conhecer sua trajetória.

Ciência, turismo e o futuro das paisagens naturais

Foto: Canva

A trajetória de Talita ilustra algo que vai além do episódio pontual da vaquinha: pesquisas como a dela fornecem os dados e os cenários necessários para pensar soluções de turismo sustentável a partir da realidade concreta dos territórios. Entender como a pressão de pesca e o aquecimento do mar transformam o comportamento alimentar dos peixes recifais é também entender, na prática, quanto tempo essas paisagens ainda têm, e o que pode ser feito para preservá-las.

O turismo carrega uma responsabilidade dupla nesse processo. De um lado, contribui para as emissões que aceleram as mudanças climáticas, sobretudo pelo transporte de visitantes. De outro, depende diretamente da conservação de recifes, praias e paisagens naturais para se manter como atividade econômica. Sem dados científicos sólidos, fica praticamente impossível planejar um modelo de exploração turística que respeite os limites desses ecossistemas.

Na Turismo 360, valorizamos e divulgamos pesquisas relevantes para o setor por meio da nossa plataforma Turismo SPOT, porque entendemos que informação científica de qualidade é a base para um turismo mais racional, mais consciente e mais preparado para os desafios ambientais que já estão em curso.

Quer conhecer mais sobre a pesquisa de Talita Motta Beneli? Acesse o link

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Camila Fróis

Jornalista atuante nas áreas de cultura, direitos humanos, meio ambiente, ciência e sustentabilidade. Mestranda em Cultura e Identidade no Instituto de Estudos Brasileiros - IEB / USP. Hábil em criação de planejamentos de comunicação, publicações customizadas, estratégias de storytelling, concepção de campanhas de divulgação multicanais e relações institucionais. Já colaborou com veículos da imprensa nacional, como os jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo, as revistas Galileu, Globo Rural, Tam nas Nuvens, Trip e Unquiet e os portais UOL, Catraca Livre, O ECO e Infoamazônia.