Normas, programas e sistemas de certificação adotam critérios e mecanismos de verificação distintos. Para pequenos e médios meios de hospedagem, entender essas diferenças é fundamental para avaliar credibilidade, aderência e capacidade de implementação.

Escolher uma certificação de sustentabilidade para um hotel exige uma decisão anterior: entender exatamente o que será avaliado e de que forma essa avaliação será feita.

A distinção é importante porque o universo das certificações reúne modelos diferentes. Há normas que estabelecem requisitos para sistemas de gestão, programas próprios de certificação, padrões reconhecidos internacionalmente e organismos responsáveis por auditar e verificar a conformidade dos empreendimentos. Embora todos possam estar associados à agenda da sustentabilidade, eles não necessariamente avaliam as mesmas dimensões nem utilizam os mesmos mecanismos de controle.

Para quem administra um meio de hospedagem, portanto, a comparação precisa ir além do nome ou da visibilidade de um selo. Critérios adotados, escopo da avaliação, independência da auditoria, periodicidade da verificação e capacidade do empreendimento de incorporar os requisitos à sua gestão são elementos que ajudam a determinar se determinado processo é adequado à sua realidade.

O tema também ganhou peso na decisão dos consumidores. Em 2025, viajantes reservaram mais de 100 milhões de diárias pela Booking.com em propriedades que apresentavam na plataforma uma certificação de sustentabilidade concedida por uma terceira parte. Na pesquisa global de Viagens e Sustentabilidade de 2026 da empresa, mais de um terço dos entrevistados, em todas as gerações pesquisadas, afirmou pretender se hospedar em um empreendimento certificado nos 12 meses seguintes.

Nesse cenário, uma pergunta torna-se particularmente relevante para a hotelaria: o que uma certificação de sustentabilidade efetivamente comprova?

Hotel Canto das Águas

Antes de comparar certificações, é preciso entender o que está sendo comparado

Norma, certificação, reconhecimento e acreditação aparecem com frequência no mesmo debate, mas cumprem funções diferentes.

Uma norma estabelece requisitos, critérios ou diretrizes. A certificação corresponde ao processo de avaliação da conformidade de uma organização, produto, serviço ou sistema em relação a requisitos previamente definidos.

No turismo, o Global Sustainable Tourism Council (GSTC) define a certificação como uma avaliação voluntária realizada por terceira parte, com auditoria destinada a verificar se uma empresa ou destino atende a determinado padrão. O GSTC não certifica diretamente hotéis: essa atividade é realizada por organismos certificadores.

A acreditação atua sobre outro elo desse processo. Em vez de avaliar o hotel, verifica e reconhece formalmente a competência do organismo responsável pela avaliação da conformidade. No Brasil, essa função é exercida, no âmbito do Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade, pela Coordenação-Geral de Acreditação do Inmetro (Cgcre).

Há ainda o reconhecimento de padrões. No sistema do GSTC, por exemplo, a classificação GSTC-Recognized indica que os critérios de determinado padrão foram avaliados e considerados alinhados aos padrões globais do Conselho. Essa informação se refere ao conteúdo do padrão. Ela não significa, isoladamente, que o organismo que concede uma certificação baseada nele tenha sido acreditado pelo GSTC.

Para o gestor hoteleiro, a distinção tem uma consequência prática. Diante de uma certificação, é preciso perguntar não apenas quais requisitos ela adota, mas também quem verifica seu cumprimento, como essa verificação ocorre e quais mecanismos asseguram a independência e a competência do processo de avaliação.

É essa cadeia que permite compreender o que está, de fato, por trás de um certificado.

A hotelaria brasileira tem uma trajetória própria de normalização

Foto: Canva

A discussão sobre sistemas de gestão da sustentabilidade em meios de hospedagem não é recente no Brasil.

Em 2006, foi publicada a primeira versão da ABNT NBR 15401, dedicada aos requisitos de sustentabilidade para meios de hospedagem. A norma foi revisada em 2014 e permaneceu como uma importante referência brasileira para o setor.

Em 2009, o Hotel Canto das Águas, em Lençóis, na Chapada Diamantina, tornou-se o primeiro meio de hospedagem brasileiro certificado pela ABNT com base na NBR 15401:2006. Associado desde 2003 à Roteiros de Charme — associação que reúne hotéis independentes no Brasil e que colabora com a construção deste artigo —, o hotel passou por aproximadamente dois anos de preparação e adequação ao processo.

O quadro normativo foi atualizado desde então. A ABNT NBR 15401:2014 foi cancelada em maio de 2026. Atualmente, a referência vigente nessa área é a ABNT NBR ISO 21401:2020, correspondente à norma internacional ISO 21401:2018. Ela estabelece requisitos ambientais, sociais e econômicos para sistemas de gestão da sustentabilidade em meios de hospedagem e pode ser aplicada a empreendimentos de diferentes portes, tipos e localizações.

O conceito de sistema de gestão é central para compreender esse tipo de abordagem. A avaliação não se restringe à existência de ações pontuais, como economia de água, separação de resíduos ou aquisição de determinados produtos. Ela envolve a capacidade de planejar, atribuir responsabilidades, executar ações, acompanhar resultados e promover melhorias ao longo do tempo.

Essa diferença ajuda a evitar uma leitura simplificada das certificações: práticas sustentáveis específicas podem integrar um processo de avaliação, mas a existência de uma prática, isoladamente, não equivale à existência de um sistema estruturado de gestão da sustentabilidade.

Modelos diferentes verificam aspectos diferentes

A ISO 21401 ajuda a ilustrar um dos caminhos possíveis: trata-se de uma norma que estabelece requisitos para um sistema de gestão da sustentabilidade em meios de hospedagem e pode servir de referência para processos de avaliação da conformidade.

O GSTC ocupa uma posição diferente nesse ecossistema. Além de estabelecer padrões globais para o turismo sustentável, reconhece padrões desenvolvidos por outras organizações e mantém um sistema de acreditação de organismos certificadores. Dessa forma, permite avaliar tanto o alinhamento dos critérios utilizados quanto, em outro nível, a competência dos organismos responsáveis por realizar determinados processos de certificação.

Há também programas internacionais que estruturam seu próprio processo de certificação. É o caso do Green Key, voltado a hotéis, hostels, pequenas acomodações e outros empreendimentos turísticos. No modelo atualmente adotado pelo programa, a candidatura envolve apresentação de documentação, auditoria presencial, decisão de certificação por uma instância independente e renovação periódica.

Esses exemplos têm uma função específica: mostrar que instrumentos apresentados ao mercado sob o grande campo das “certificações de sustentabilidade” podem ter escopos, critérios, formas de auditoria e estruturas institucionais diferentes.

É justamente por isso que uma escolha consistente começa pela análise do processo e não pela comparação isolada entre marcas ou selos.

O que avaliar antes de escolher uma certificação

O primeiro aspecto a observar é o escopo

O que exatamente será avaliado? O programa contempla apenas aspectos ambientais ou incorpora também dimensões sociais, econômicas e de governança? Avalia determinadas práticas ou um sistema de gestão? Os requisitos estão disponíveis publicamente e permitem compreender o grau de exigência do processo?

O segundo ponto é como a conformidade é verificada

Quem realiza a auditoria? A organização que verifica o empreendimento é a mesma que decide pela concessão do certificado? Existem mecanismos destinados a preservar a independência da avaliação? Há algum processo externo de acreditação ou outra forma de reconhecimento da competência do certificador?

Também importa compreender quais evidências serão exigidas

Uma avaliação consistente precisa permitir verificar se aquilo que está declarado pelo empreendimento é efetivamente realizado. Isso pode envolver documentos, registros de consumo, indicadores, procedimentos internos, entrevistas, inspeções e outras evidências previstas em cada metodologia.

Outro aspecto é o tratamento dado às não conformidades e à continuidade da certificação

O que ocorre quando um requisito não é atendido? Existe prazo para correção? Por quanto tempo o certificado permanece válido? Há auditorias de acompanhamento? Como funciona a renovação?

Essas questões — critérios, escopo, auditoria, decisão, evidências, não conformidades, validade e reavaliação — já permitem comparar processos que, observados apenas pelo selo exibido ao público, podem parecer equivalentes.

Mas há uma segunda dimensão dessa escolha: a capacidade do próprio empreendimento de implementar o sistema.

Equipe disponível, necessidade de capacitação, coleta e organização de dados, apoio técnico, eventuais custos de consultoria, investimento em adequações e tempo dedicado à gestão precisam ser considerados antes da adesão.

Uma certificação tecnicamente robusta pode exigir uma estrutura que determinado hotel ainda precisa desenvolver. Considerar essa condição não reduz o rigor necessário à avaliação. Permite planejar a implantação, estabelecer prioridades e compreender os recursos necessários para que os requisitos sejam incorporados à operação em vez de tratados apenas como uma etapa burocrática para obtenção de um certificado.

O desafio dos pequenos e médios meios de hospedagem

Foto: Canva

Essa questão ganha especial importância na hotelaria independente.

Embora uma norma como a ISO 21401 possa ser aplicada a empreendimentos de qualquer porte, pequenos hotéis e pousadas costumam trabalhar com estruturas administrativas, equipes e capacidades de investimento diferentes das encontradas em grandes redes.

A experiência brasileira com a antiga NBR 15401 já indicava essa tensão. Estudos sobre os primeiros processos de implementação registraram ganhos relacionados à organização interna e à qualificação de procedimentos, ao mesmo tempo em que apontaram dificuldades associadas à complexidade da norma, ao tempo necessário para implantação e à gestão documental.

O desafio, portanto, está em construir capacidade de gestão suficiente para atender requisitos consistentes sem ignorar as condições concretas de operação desses empreendimentos.

A trajetória recente da Roteiros de Charme oferece um exemplo de como essa preparação pode ser tratada no âmbito de uma associação formada majoritariamente por hotéis independentes.

A Associação adota desde 1999 um Código de Ética e de Conduta Ambiental, elaborado à época em cooperação com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Na revisão de 2026, o documento passou a organizar de forma mais estruturada compromissos ambientais, sociais e de governança e estabeleceu uma implementação gradual, considerando as condições econômicas, administrativas e operacionais dos diferentes associados.

Entre as diretrizes estão a definição de responsáveis pela gestão ambiental, o estabelecimento de metas, o monitoramento de resultados e a adoção de ferramentas de diagnóstico e acompanhamento. O Código também orienta que decisões de investimento levem em conta a situação financeira de cada empreendimento e a possibilidade de introdução gradual de tecnologias e processos.

O Código não deve ser confundido com uma certificação. Sua contribuição para esta discussão está em outro ponto: ele mostra que, antes mesmo da avaliação externa, há um trabalho interno de organização da gestão, definição de responsabilidades, produção de dados e acompanhamento de resultados.

São justamente essas capacidades que permitem a um empreendimento responder de forma consistente às exigências de um processo de certificação.

Certificar pressupõe acompanhar

A mensuração entra nesse processo por uma razão concreta. Sem uma situação inicial conhecida, torna-se difícil identificar evolução; sem indicadores, fica mais difícil saber se uma medida adotada produziu o resultado esperado.

Consumos de energia e água, geração e destinação de resíduos, relações com fornecedores, condições de trabalho e impactos associados à operação podem exigir diferentes formas de registro e acompanhamento, conforme o escopo adotado. Na atualização do Código da Roteiros de Charme, por exemplo, aparecem instrumentos como definição de metas, monitoramento de progresso e registro de consumos.

É nesse sentido que uma certificação pode contribuir também para a gestão: ao estabelecer requisitos, responsabilidades, evidências e ciclos de acompanhamento, cria referências para verificar se compromissos assumidos estão sendo efetivamente implementados.

A obtenção do certificado não encerra esse trabalho. Processos consistentes preveem acompanhamento, tratamento de não conformidades e novas avaliações ao longo do tempo.

A escolha começa pelo resultado que se pretende alcançar

Certificações podem ampliar a credibilidade das informações apresentadas ao mercado, oferecer parâmetros reconhecidos e ajudar a estruturar processos internos. O alcance de cada uma dessas contribuições, porém, depende dos critérios adotados, da qualidade da verificação e da forma como os requisitos passam a fazer parte da gestão cotidiana.

Para pequenos e médios meios de hospedagem, isso torna a escolha especialmente estratégica. O processo adequado precisa combinar requisitos consistentes, mecanismos confiáveis de avaliação e uma implementação compatível com a capacidade de gestão do empreendimento — inclusive quando essa capacidade precisa ser construída gradualmente.

Por isso, antes de decidir qual certificação buscar, gestores podem começar por perguntas mais fundamentais: quais aspectos da operação precisam ser aprimorados, quais resultados se pretende alcançar e que evidências permitirão verificar se houve avanço?

A partir dessas respostas, torna-se possível analisar normas, programas e certificações com critérios mais objetivos — e compreender qual instrumento efetivamente contribui para a trajetória de sustentabilidade de cada empreendimento.

Este conteúdo integra a parceria editorial entre Turismo Spot e Roteiros de Charme, criada para ampliar a produção e a circulação de conhecimento sobre sustentabilidade, gestão e os desafios contemporâneos do turismo e da hotelaria. Saiba mais sobre a parceria.

 

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