O Governo Federal lançou no dia 16 de março último, o Plano Nacional sobre Mudança do Clima (Plano Clima 2024-2035). Ele representa o ferramental mais estratégico da política climática do País, e visa reduzir as emissões de gases de efeito estufa entre 59% a 67% até 2035 (com base nas emissões de 2005), caminhando para a meta de neutralidade total até 2050, como estabelece o Acordo de Paris. Também visa preparar pessoas, comunidades, territórios, cidades e setores econômicos para mais resiliência face aos crescentes riscos e prejuízos de um clima em mutação. Divide-se em 8 planos setoriais de mitigação e 16 planos setoriais de adaptação, onde se insere o Plano de Turismo.
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Desde novembro de 2024, o turismo passou a integrar os compromissos climáticos brasileiros, com a segunda Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC 2) depositada junto à Convenção-Quadro das Nações Unidas Para Mudanças Climáticas (UNFCCC) em Baku (COP29). Isso significa que o setor entrou no rol das responsabilidades climáticas nacionais, como atividade socioeconômica altamente exposta às variáveis de clima.
Em um país tropical de alta vulnerabilidade às mudanças climáticas, como o Brasil, há indicativos de maior ocorrência e intensificação de eventos extremos, como tempestades, inundações, deslizamentos de terra, seca, incêndio ou branqueamento de corais. Todos esses fenômenos impactam o turismo negativamente (aumento de riscos, aumento de custos e redução de lucros, perda de atratividade e redução de procura) e positivamente (novas oportunidades de modelos de desenvolvimento de destinos e de negócios). Enfim, cria novos desafios.

Foto: Embratur
O conhecimento sobre o clima e seus impactos, desafios e oportunidades no turismo brasileiro é recente e ainda limitado. São muito poucos os debates qualificados sobre a temática no País. No Paraná estão nossos pioneiros: a pesquisadora Isabel Grimm faz alertas desde 2012 sobre a necessidade de mais atenção ao tema; e o Plano Paraná Turístico 2026, elaborado em 2016, abordou pela primeira vez a problemática do clima no contexto turístico brasileiro. Em âmbito federal, a temática de mudanças climáticas foi incorporada ao setor em 2024, e carece de aprofundamentos. Nas políticas estaduais, além do Paraná, apenas Mato Grosso do Sul e Minas Gerais possuem abordagens oficiais com alguma consistência sobre a correlação clima e turismo. No âmbito municipal, Bonito-MS inaugurou a temática ao certificar-se como Destino Carbono Neutro em 2022. Contudo, nenhum governo implementou estratégias robustas, com metas, indicadores, programas, projetos, ações e, principalmente, investimentos no patamar da complexidade do tema, ou que leve a resultados transformadores rumo ao baixo carbono ou à resiliência da atividade.
O Plano Clima – Adaptação Setorial Turismo reconhece a problemática e estabelece prioridades, indicativos de ação e, principalmente, de investimentos. Ele é moderadamente ambicioso e pode ser um divisor de águas na forma como pensamos e fazemos o turismo no Brasil. Ele exige uma revisão no PNT 2024-2027, para maior aderência à resiliência climática dos programas nacionais, assim como de todas as políticas estaduais. A atuação privada igualmente merece revisão, mas, também, deve cobrar por incentivos, acesso a pesquisas aplicadas e soluções climáticas, além de financiamentos climáticos direcionados a custear a transição e a implementar novos programas. Vale lembrar que o clima se torna, cada vez mais, um fator de competitividade no turismo global, conforme amplamente discutido na ITB 2026 (Berlim, Alemanha).

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Se implementado, o Plano Clima tem potencial de inaugurar uma nova forma de se abordar políticas públicas no País: reposicionar a importância do clima no contexto turístico, de tema marginal a tema central, é cuidar das pessoas, da natureza e da economia hoje e amanhã. Em turismo, é, sobretudo, inaugurar inúmeras novas oportunidades e modelos de negócios que financiam, sobretudo, uma economia regenerativa e expandem os meios de captura de carbono.
A expansão exclusivamente numérica do turismo há muito deixou de ser o modelo coerente face aos novos desafios deste século, sobretudo clima e guerras. O grande desafio nacional, e mesmo mundial, é crescer com redução da emissão de carbono. E, para isso, é preciso compreender, discutir, redesenhar e investir em novos modelos de negócios e de planejamento de destinos. Mas, sobretudo, agir alinhado às mudanças climáticas. Para nosso regozijo, há esperanças com o novo Plano.




