Por mais que no cotidiano o turismo seja reduzido aos seus aspectos econômicos ou às experiências dos turistas e aos modos de gerenciar e atender às suas expectativas, não há como ignorar outras características que fazem dele um fenômeno social e histórico. Sem refutar os impactos econômicos que traz, é indispensável pensar essa atividade complexa sob as perspectivas multi e interdisciplinares.
Tome-se como exemplo a análise da escolha, em si mesma, dos destinos que visitamos. De algum modo, esses lugares evocam algum tipo de memória que guardamos deles. Uma fotografia que alguém nos mostrou ou que vimos publicada em algum lugar, a menção de algum prato gastronômico local, uma paisagem… enfim, qualquer estímulo aos nossos ouvidos, olhos, tato, paladar ou olfato desperta em nós algum “guardado”. A realidade, de alguma forma, nos recorda uma ou mais experiências vividas e ativa nossos mais diversos interesses. Assim acontece com nossas escolhas ou motivações para viajar. Contudo, não é difícil pensar que ao mesmo tempo que as memórias motivam diferentes pessoas a viajarem, o próprio viajar e as viagens estabelecem os fundamentos de novas memórias – tanto nos moradores de um lugar como nos viajantes.
Foi pensando nisso que me lembrei (!) das memórias de um lugar e de como o turismo lida com esse tipo de fenômeno (das memórias), que vivenciamos a todo instante, mas que destacamos quando decidimos viajar para conhecer novos lugares ou visitar aqueles que conhecemos, e que, todavia, nos atraem porque ali descobrimos coisas novas todas as vezes que os visitamos. Por que não nos cansamos dos já conhecidos ou por que escolhemos os que são novidades?
Desde sempre, provavelmente, o ser humano se questiona sobre as subjetividades da vida, sobre seu papel neste planeta. Contudo, não sabemos em que momento alguma espécie Homo passou a inquirir das estrelas que via no céu ou dos sons das águas e das florestas quais seriam sua origem, seu destino e suas responsabilidades.
Inscrições rupestres em todo o mundo registram cenas de caça e outras do cotidiano, como as de sobrevivência em diversas situações, que, sim, mostram a evolução de técnicas dos próprios registros. Todavia, não temos como explicar alguns desses relatos gravados para um possível futuro vislumbrado, sonhado ou imaginado. Não há respostas “cravadas” para algumas figuras e achados. No máximo, podemos especular sobre a intenção ou intenções de quem as imprimiu nas rochas e imaginar que alguém, um dia, quis deixar um registro, uma “memória” da vida vivida.

Foto: Turismo 360
Assim, decidi elaborar uma breve reflexão sobre a questão da memória ou das memórias, já que têm sido estudadas por diversas áreas das ciências. Há quem estude os processos da linguagem, da atenção e da tomada de decisões (neurociência cognitiva); há os que se dedicam a entender as relações entre o cérebro e o comportamento (neuropsicologia); há os que passam seus dias na busca pelo entendimento das estruturas físicas e da organização do sistema nervoso (neuroanatomia) ou, ainda, os pesquisadores que se interessam pelas proteínas e genes no estudo da neurociência molecular. Todas passíveis de associações a questões relativas ao turismo, que tanto nos interessa, e possíveis matérias para muitas outras análises.
Os estudos e descobertas das neurociências têm conduzido à concordância sobre a existência de “diferentes memórias”, como as de curta ou de longa duração (aquela que “sabe que” e “sabe como”, por exemplo). São inúmeros os desafios e variadíssimas as perguntas e, por que não dizer, os enigmas, escondidos nos processos vitais do sistema nervoso. De igual modo, são inúmeras as possibilidades de analisar o tema e suas relações com o turismo, por si mesmo constituído de numerosas faces, e/ou com tudo o mais que se relaciona à vida. Daí, também, a necessidade, sempre, de se escolher um ponto, focá-lo, examiná-lo e, a partir dele, buscar outras possíveis relações, quase num perpetuum mobile que, se impossível para a mecânica, provavelmente, consista na própria confirmação de que estejamos vivos.
Sendo assim, guiados pelo título destas breves observações e pelos argumentos que já foram apresentados, podemos agora dedicar algum tempo a pensar em algumas possíveis relações entre turismo e memórias.
Certamente cada um que lê o que escrevo já deve ter buscado “dentro de si” seu conceito de memória. Não vamos discuti-lo. Podemos partir do pressuposto de que todos entendemos a memória como a capacidade dos seres vivos de adquirir, armazenar e evocar informações. Isto basta para nossas finalidades aqui.
Também não é muito complicado perceber que durante todo o tempo em que estamos acordados “adquirimos” informações. Facilmente, constatamos que nossos sentidos nos informam, com frequência, sobre a realidade à nossa volta. Perceber esses fenômenos não é difícil. No entanto, não é tão simples explicá-los. O desenvolvimento das neurociências tem lançado muitas novas luzes em mais esse caminho misterioso e estimulante que sustenta a vida. Hoje conhecemos muito sobre os neurônios e os muitos outros tipos celulares que compõem o sistema nervoso. Anatomicamente, já se conhece muito. Também do ponto de vista da fisiologia ou dos processos bioquímicos e da biologia molecular que sustentam seu funcionamento, há muita pesquisa. Tanto assim que há diversas áreas de estudo sobre as memórias. Pode-se citar, por exemplo, a neurociência comportamental em que se analisam os circuitos específicos que resultam em interações sociais e respostas a estímulos externos; há a neurobiologia, que se dedica ao estudo da comunicação entre os neurônios, seus neurotransmissores e as sinapses que estabelecem entre si; há os que estudam a neurociência cognitiva, aquela que tem seu foco exatamente na busca pela compreensão de como as informações são processadas no cérebro resultando em funções ditas superiores, como a memória e a linguagem. Não é difícil perceber, portanto, a enorme abrangência e dimensão do desafio de buscar compreender toda a imensidão desse universo que nos compõe. Teremos que contar “apenas” com o nosso próprio cérebro e sua capacidade de captar, reunir, catalogar, armazenar e evocar as informações que recebe sem cessar, e, por fim, esperar que esse mesmo cérebro as relacione e isto, de acordo com as “ideias” do pesquisador na procura de explicações de si mesmo. De algum modo, isto me lembra das teorias dos fractais e dos sistemas complexos, da lógica fuzzy, da história e da filosofia da ciência. Livre pensar.
Consideremos, então, que as informações são levadas ao cérebro pelos diferentes sentidos e que ali sejam “inscritas”. Sugiro que você leia ao menos a primeira parte do artigo Memórias, publicado em 1989 por Ivan Izquierdo (argentino naturalizado brasileiro), um dos mais consagrados neurocientistas e com quem tive o privilégio de aprender durante um breve curso. Certamente, a leitura completa será melhor aproveitada pelos que já são ou que se interessam pelas áreas biológicas, uma vez que haverá citações sobre anatomia, fisiologia e bioquímica do cérebro. Mas garanto que vale a leitura. Cito lá do início:
Memória é nosso senso histórico e nosso senso de identidade pessoal (sou quem sou porque me lembro quem sou).
Não há memória sem aprendizado, nem há aprendizado sem experiências. Aristóteles já disse, 2.000 anos atrás: “Nada há no intelecto que não tenha estado antes nos sentidos.”
Lembrar é vital para nossa sobrevivência. É preciso lembrar o caminho para casa, para o trabalho ou para a escola; lembrar que podemos tomar choques se colocarmos o dedo ou um objeto nas tomadas elétricas; que atravessar a rua sem atenção pode nos causar grave acidente e por aí vai. O dia todo e todo o dia, nos informando (aprendendo), nos lembrando e esquecendo.
Já se conhece muito sobre a aquisição das memórias. Quanto ao armazenamento das experiências e do aprendizado, apesar dos muitos avanços, ainda resta muito a descobrir. Sabe-se, por exemplo, que isso se dá na forma de files, de arquivos e em categorias.
Há, talvez, tantos tipos de memória como tipos de experiência; não obstante, muitos a classificam de diversas formas. Existe um certo afã do homem em classificar, uma tendência enorme em fazê-lo constantemente, talvez como método básico para não se sentir tão profundamente ignorante. Ao classificar, reduzimos as coisas à nossa própria dimensão, não à dimensão que as coisas têm.
Para exemplificar a complexidade da categorização, Izquierdo cita o escritor Jorge Luis Borges nesta que considero “uma delícia”:
Classificar é, de fato, uma operação que implica em esquecer: esquecer diferenças para sustentar semelhanças.
Os orientais acham graça da tendência dos ocidentais em classificar coisas, e pôr um nome em tudo; será por isso, talvez, que em muitos lugares do Oriente não põem nome nem nas ruas […] Porém, a classificação mais ridícula que conheço é, precisamente, chinesa: a estranha classificação dos animais, constante do “Empório celestial de conhecimentos benévolos” […]:
a) pertencentes ao Imperador;
b) embalsamados;
c) amestrados;
d) leitões;
e) sereias;
f) fabulosos;
g) cachorros soltos;
h) incluídos nesta classificação;
i) que se agitam como se fossem malucos;
j) inumeráveis;
k) desenhados com um fino pincel de pêlo [sic] de camelo;
l) etcétera;
m) que vêm de quebrar um vaso;
n) que de longe parecem moscas.
As classificações da(s) memória(s) não são muito melhores. (grifo meu)
Mas o que nos leva a manter ou não uma memória? Ou, em outras palavras, o que leva à sua resistência ou à sua extinção, ao esquecimento? De acordo com os estudos, são quatro os fatores determinantes: seleção, consolidação, incorporação de mais informação e a formação de registros ou files.
Uma vez selecionada, a memória bem consolidada dificilmente se extingue. Contudo, Izquierdo garante que “algum grau de esquecimento é necessário para ter uma vida útil.” […] “que é preciso esquecer para poder pensar”.
E agora, uma afirmação que nos importa no turismo: “As memórias adquiridas […] com certa carga emocional ou afetiva são melhor lembradas que as memórias de fatos inexpressivos ou adquiridas em estado de sonolência”. Comprovadamente, nestes casos, há liberação de certos neurotransmissores centrais (por exemplo, as endorfinas – lembra-se delas? Estão entre os chamados neuro-hormônios da felicidade).

Foto: Turismo 360
Penso que já seja possível relacionar as memórias aos preparativos e à própria viagem. As experiências gravadas no cérebro serão evocadas no momento da escolha do lugar, do tipo de viagem, da companhia que teremos ou queremos, dos atrativos locais e assim por diante. As emoções envolvidas em todo o processo da aquisição, armazenamento, evocação e consolidação de informações, de experiências ou de memórias são, de algum modo, estimuladas e o resultado talvez nunca seja totalmente como o programado. Não é custoso perceber que experiências desagradáveis, imprevistas ou inesperadas costumam frustrar a viagem. Por sua vez, essas novas memórias constituirão material para as próximas escolhas.
Como se vê, o carretel é grande e há muita linha para desenrolar. Mas o tempo e o espaço devem ser contidos e, com eles, o volume das informações, do aprendizado e das inscrições de novas memórias nos nossos cérebros.
A título de conclusão, cabe uma pergunta: diante de tantas informações disponíveis sobre tudo o que nos cerca, da influência cada vez mais forte (agressiva?) da comunicação, até que ponto “escolhemos” nossas viagens? Serão essas novas memórias insistentemente criadas e impressas no nosso cérebro, em última análise, as responsáveis por nossas escolhas? Recentemente li dois artigos muito interessantes que também me motivaram a fazer esta reflexão. Ficam as sugestões: Mariana Aldrigui (Revista Piaui, abril/2026): Viajar é, cada vez menos, um ato de liberdade e Agnes Callard (The New Yorker, jun/2023): The Case Against Travel.




