A imagem da mulher que arruma as malas para viajar sozinha costuma vir acompanhada de uma aura quase mística, alimentada por um imaginário romântico que insiste em enxergar a jornada da ‘viajante solo’ como um ato de cura emocional ou uma busca espiritual desinteressada.
No entanto, quando olhamos para o turismo feminino sem esses estereótipos, focando na realidade das estradas, das rodoviárias e dos aeroportos, o que encontramos é algo muito mais concreto: uma transformação no comportamento de consumo e no mercado de viagens.

Foto: Embratur Sebrae
As mulheres brasileiras que viajam sem acompanhante não estão necessariamente fugindo da rotina ou esperando uma companhia que não chegou; elas estão exercendo a gestão do próprio tempo, do próprio dinheiro e da própria autonomia.
Viajar sozinha já faz parte da vida de muitas mulheres
Os levantamentos do setor e os dados divulgados recentemente pelo Ministério do Turismo revelam uma dimensão que, na prática, a indústria da hospitalidade ainda não assimilou completamente: quatro em cada dez brasileiras já viajaram sozinhas, e 31,4% fazem isso com frequência. Entre elas, a faixa etária mais representativa está entre 35 e 44 anos (34,6%), seguida pelas mulheres de 45 a 54 anos.
O próprio MTur vem incorporando essa discussão à sua agenda de Turismo Responsável e à pauta internacional de igualdade de gênero. Recentemente, lançou um guia voltado às mulheres que viajam sozinhas, com orientações para tornar a experiência mais segura e planejada. O material se soma a outro guia, lançado em 2025, com dicas para o atendimento de turistas mulheres, desta vez direcionado ao setor de serviços. São iniciativas que mostram que a viajante solo deixou de ser um nicho e passou a demandar uma preparação mais ampla de toda a cadeia turística.

Foto: Embratur Sebrae
Há uma fatia expressiva de mulheres economicamente ativas que decidem os rumos do próprio lazer, financiam suas hospedagens e utilizam feriados prolongados, fins de semana e períodos de férias para circular pelo país ou até mesmo para o exterior. Ainda assim, a estrutura do turismo tradicional, que no passado foi desenhada ignorando a existência dessa cliente, em muitos lugares permanece igual.
Ao longo de mais de 10 anos viajando sozinha e criando conteúdo sobre o assunto, tendo inclusive publicado um livro de crônicas intitulado “Nem louca, nem coitadinha, nem tão corajosa assim”, percebo que os gargalos enfrentados por nós mulheres vão muito além de questões subjetivas.
Sim, há medos, inseguranças e outros pontos que ainda impedem muitas de viajarem. Mas há, também, questões concretas. O mercado insiste em precificações com tarifas individuais que beiram o valor cobrado por um casal, o que é um peso no bolso. Além disso, muitos destinos e profissionais demonstram um despreparo na entrega de informações essenciais sobre segurança local e mobilidade urbana.
Da mesma forma, a experiência gastronômica e os espaços de convivência dos meios de hospedagem frequentemente constrangem quem ocupa uma mesa sem acompanhante, revelando uma falta de treinamento básico das equipes de atendimento.
Mulheres que viajam não são exceção
Acolher a viajante solo não exige a criação de pacotes mirabolantes, mas sim a revisão de práticas ultrapassadas que geram atrito e afastam um público com alto poder de decisão.
Quando o trade turístico investe em transparência nas orientações do destino, em políticas tarifárias coerentes para ocupação individual e em um atendimento que respeite a autonomia feminina sem olhares invasivos ou julgamentos, ele não está apenas prestando um bom serviço, está garantindo a fidelidade de um perfil de cliente que recomenda, retorna e movimenta a economia local durante todo o ano.
Vale lembrar também que, por trás de cada estatística que atesta a consolidação desse mercado, existem as nuances da experiência viva. Compreender o impacto econômico e social desse movimento é fundamental para o setor, mas é no cotidiano das viagens, no olhar atento e nas pequenas travessias da autonomia que a verdadeira dimensão dessa escolha se revela.
Por que a mulher que viaja sozinha não precisa de coragem. Precisa de um turismo preparado!



