Interseccionalidade e decolonialidade: palavras difíceis, mas necessárias
O que é interseccionalidade?
O termo interseccionalidade tem sido usado com muita frequência, mas você sabe o que ele significa? E o que ele tem a ver com turismo? Já pensou a respeito?
Seja você turista, viajante ou estudante do tema, eis aí uma palavra que lhe diz respeito. Na verdade, é um conceito associado ao nosso viver e a atividade turística não escapa dele, pois tudo o que envolve pessoas e nosso mundo colonizado envolve interseccionalidades. Este conceito explica como diferentes partes da identidade de uma pessoa — como raça, gênero, classe social, sexualidade e deficiência — se cruzam e se sobrepõem e, em vez de somar preconceitos, esses cruzamentos criam formas únicas e específicas de discriminação ou privilégio na sociedade. O conceito é fruto da luta feminista e surgiu em 1989, cunhado pela jurista estadunidense Kimberlé Crenshaw, em meio de uma articulação entre conceitos como gênero, raça e classe.
Como as desigualdades aparecem no turismo
O turismo sob esta ótica aborda como as diversas dimensões psicossociais se cruzam, moldando o acesso ao lazer, as experiências de viagem e as condições de trabalho. Ele expõe desigualdades em que o viajante padrão é historicamente visto como branco e de alta renda, enquanto grupos minorizados enfrentam barreiras estruturais ou atuam nos bastidores do setor.

Foto: Embratur Sebrae
Sob a perspectiva do acesso, raça, gênero e renda definem quem viaja com segurança e quem sofre discriminação, assédio ou olhares desconfiados em hotéis, aeroportos e pontos turísticos. Sob a ótica do trabalho e subalternização, mulheres, pessoas negras e migrantes formam a base da mão de obra operacional na hotelaria e no turismo, muitas vezes em condições de menor visibilidade e valorização. Os marcadores sociais influenciam o acesso a viagens, o comportamento de consumo e as desigualdades no mercado de trabalho do setor. Esses fatores determinam quem viaja, como viaja e quem ocupa posições de trabalho remunerado nas atividades turísticas.
Idade e etarismo no turismo
Quando se adiciona a camada idade a estes marcadores, percebe-se que o etarismo, ou discriminação por idade, é uma realidade global, incluindo o setor de turismo. Ao envelhecer, as pessoas geralmente enfrentam estereótipos que limitam suas oportunidades, como suposições sobre suas habilidades físicas, preferências ou desejos de experiências, seja no mercado de trabalho ou como viajante.

Fonte: Embratur Sebrae
Colonialidade e turismo
Não se pode esquecer que a origem de todas as formas de opressão e discriminação tem forte origem no colonialismo, dominação física e militar histórica de um território por uma outra, invasora. A colonialidade é a herança invisível desse processo, que mantém as desigualdades sociais no presente. Esta visão coloca a Europa e a cultura ocidental no centro do progresso humano, tratando outros saberes como atrasados. O pensamento decolonial visa desconstruir hierarquias e mostrar que divisões baseadas em raça e gênero servem para manter o poder nas mãos de grupos privilegiados.
A interseccionalidade e o pensamento decolonial são ferramentas críticas que explicam como o racismo, o machismo e o capitalismo funcionam juntos como herança da colonização. Juntas, elas mostram que as opressões não agem sozinhas, exigindo uma transformação radical dos saberes e da sociedade a partir da experiência dos grupos subalternizados. E isso está presente na atividade turística e em como se pensa o turismo também!
Turismo interseccional e decolonial é possível?

Fonte: Embratur Sebrae
Barreiras enfrentadas por diferentes grupos de viajantes
O turismo e os preconceitos cruzam-se de várias formas, afetando tanto quem viaja quanto os trabalhadores e moradores locais. Isso inclui barreiras como racismo, xenofobia, gordofobia, machismo, etarismo, homofobia e capacitismo, além de destinos que impõem riscos reais a minorias ou sofrem com a exploração cultural. E tudo isso pode-se dar tanto a partir de quem recebe como de profissionais e instituições do setor, já que esta atividade é conduzida por seres humanos.
Muitas vezes comunidades tradicionais ou indígenas são reduzidas a meros “espetáculos” para agradar o olhar de quem vem de fora, desrespeitando suas identidades reais. Viajantes negros ou indígenas enfrentam olhares de desconfiança, barreiras no atendimento e baixa representatividade na publicidade do setor. Tem sido cada vez mais comum a rejeição a visitantes por causa de nacionalidade ou origem, muitas vezes impulsionada pela revolta contra os impactos negativos do excesso de visitantes nas localidades.
Leis locais ou costumes severos em certos países colocam a integridade física de minorias em perigo real, tornando destinos de risco para LGBTQIA+ e mulheres, por exemplo. Os assentos apertados em aviões, catracas estreitas e infraestrutura hoteleira não inclusiva limitam a circulação de pessoas gordas ou com deficiência. E o que não dizer sobre o tratamento infantilizado muitas vezes reservado às pessoas idosas?
O “teste do pescoço” aplicado ao turismo
Um outro desafio é fazer o teste do pescoço: ao fazer sua viagem ou ao prestar seus serviços, gire seu pescoço e conte o número de pessoas pertencentes a grupos minorizados que estão ao seu redor. Provavelmente você verá predominância de pessoas brancas ou de pele clara. Pergunte-se se isso é somente o reflexo de uma sociedade preconceituosa e excludente ou se as suas escolhas e práticas não estão favorecendo que ela permaneça assim.
Viagens e a redução de preconceitos
O turismo é apontado como fator que contribui para reduzir preconceitos ao promover o contato direto com novas culturas, histórias e modos de vida. As trocas que a atividade propicia podem quebrar estereótipos, gerar empatia e estimular o respeito à diversidade, desde que a atividade seja realizada de maneira ética, inclusiva e respeitosa tanto com as comunidades locais quanto com os próprios viajantes.

Foto: Embratur Sebrae
Segmentação é um direcionamento de marketing, mas não deve ser um fator de exclusão. A diversidade nas equipes também deve ir além de papéis subalternos ou decorativos. Caminhos existem para concretizar o turismo como redutor de desigualdades e a cada dia se percebe o quanto é necessário reconhecer e estabelecer contato com o “diferente”. Viajar ou acolher os visitantes permite aceitar que o seu modo de vida é apenas um entre milhares no mundo. É trocar o julgamento pela escuta, entender outras culturas sem achar que a sua é a única correta e perceber que cada ser é apenas um eterno aprendiz
Para saber mais:
Akotirene, C. Interseccionaliade. São Paulo: Pólen. (2019).
Assis, D. N. C. Interseccionalidades / Dayane N. Conceição de Assis. – Salvador: UFBA, Instituto de Humanidades, Artes e Ciências; Superintendência de Educação a Distância. 57 p. : il. 2019.
Morais, I. A. de L., Santos, E. M. dos, & Santos, I. B. dos. (2023). Mulheres Negras no Turismo: desafios enfrentados pelas integrantes do Coletivo Bitonga Travel. Revista Brasileira De Pesquisa Em Turismo, 17, 2722.
MUNANGA, Kabengele. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. Programa de educação sobre o negro na sociedade brasileira. Tradução . Niterói: EDUFF, 2004. Disponível em: https://repositorio.usp.br/item/001413002 Acesso: 01/05/ 2026.
VERGÈS, Françoise. Um feminismo decolonial. São Paulo: Ubu Editora, 2020.



