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A   lógica da regionalização parte do pressuposto que a união de esforços e a sinergia e/ou complementaridade de serviços e atrativos entre municípios com diferentes características pode alavancar a competitividade turística de determinado território, seja por permitir a estruturação de produtos, por contribuir com a diversificação da oferta ou pela possibilidade de agregar aspectos locais na experiência turística – como artesanato, produção agrícola, manifestações culturais, etc. No Brasil, a regionalização do turismo vem sendo adotada como um dos eixos centrais da política nacional de turismo desde 2004. 

No estado de São Paulo – ​​maior e mais importante economia do país – a cooperação técnica entre o BID e a SETUR/SP viabilizou a construção do Plano de Regionalização do Turismo do Estado, executado pela Turismo 360 em 2022. Os métodos adotados  no caso de São Paulo incluíram diferentes ferramentas, dentre elas:

  • Análise da situação atual das regiões (legislação, estrutura, conquistas e desafios);
  • Análise de tendências (nacionais e internacionais);
  • Análise de boas práticas em outros destinos (benchmarking);
  • Pesquisa com o mercado (entrevistas com agências e operadores);

O processo de construção do plano descortinou reflexões e constatações relevantes sobre a estratégia de regionalização, bem como alguns dos desafios que muitas vezes se configuram em oportunidades. Selecionamos aqui cinco reflexões, resultantes da experiência em São Paulo:

O papel do Estado na Regionalização do Turismo

A regionalização do turismo como política pública prescinde do Estado (com E maiúsculo em referência do Governo) na criação das bases e condições para indução do desenvolvimento da atividade. Experiências internacionais referência – como a Costa Rica, o estado de Victoria na Austrália e a região de Chianti na Toscana, Itália – revelam que o governo tem um papel central na condução da estratégia. No entanto, o setor privado é um elo fundamental na cadeia de valor, uma vez que é o principal responsável pela oferta dos serviços turísticos. Um dos objetivos da regionalização é, portanto, estimular a sinergia entre os setores, induzindo o entendimento das responsabilidades compartilhadas e ambientes de governança ativos, com autonomia na gestão de seus recursos.

A conexão com o mercado

Apesar de ser uma estratégia pública, a regionalização deve se inspirar nas relações de oferta e demanda que operam no mercado. Elementos de diferenciação e identidade do território são importantes para fortalecer o posicionamento das regiões. Em São Paulo, por exemplo, observou-se que as regiões que formaram identidade a partir de elementos comuns de conexão como formação geográfica, gastronomia, cultura ou produção agrícola, tendem a ter um posicionamento de mercado mais efetivo. 

É importante ressaltar, contudo, que a regionalização não é garantia de acesso ao mercado, que possui uma dinâmica própria e muitas vezes não observa as fronteiras geográficas. Não cabe à regionalização criar produtos e roteiros ou limitar a participação dos municípios nesses roteiros. Um mesmo município pode integrar mais de um produto ou roteiro. 

A inteligência coletiva regional como eixo prioritário

O turismo é uma atividade econômica, que envolve, dentre outros aspectos, organização, produção, comercialização e monitoramento. Na Toscana, por exemplo, é ao redor das sinergias e iniciativas de cooperação formalizadas que se desenvolve e aprimora a inteligência coletiva e o capital social. E é essa cooperação que favorece a qualidade do turismo na região, com foco na geração de valor no longo prazo. 

De nada adianta um território integrado por proximidade geográfica sem uma inteligência que promova e estimule a gestão da região enquanto um território turístico, olhando sua sustentabilidade no longo prazo. Nesse contexto, a criação e o estímulo ao fortalecimento de uma inteligência coletiva é um dos pilares prioritários da estratégia da regionalização. 

Visão e gestão ecossitêmica do turismo

Diretamente ligado ao item anterior, verificou-se que modelos construídos dentro de uma visão ecossistêmica são aqueles que atingem resultados mais expressivos. Visão, valores e objetivos devem ser definidos em ambientes que compreendem o âmbito de atuação dos atores envolvidos e ainda proporcionem interação a partir de ferramentas de cooperação, convergência e complementaridade. Os papéis de cada ator são dinâmicos e é importante manter estruturas flexíveis, capazes de evoluir, à medida que a política pública, as instâncias regionais e o mercado amadurecem. 

Menos processos e mais resultados

Em geral, o monitoramento da regionalização do turismo – até mesmo na esfera federal –  se detém a fatores burocráticos relacionados à adesão dos municípios e regiões turísticas ao programa. Verifica-se documentos de processos como legislação, planos e atas de reuniões. O que se percebe é a necessidade de estabelecer um monitoramento dos resultados relacionados ao desenvolvimento territorial por meio do turismo, estabelecendo paralelos com outras realidades que não participam do programa, constatando sua eficiência com indicadores econômicos, sociais e ambientais.

 

No Plano de Regionalização do Turismo de São Paulo foram sugeridas métricas de desempenho de destinos e instâncias de governança regionais, usando dados de fontes secundárias (fontes oficiais e plataformas online). Assim, foram estabelecidos índices de atratividade, de oferta e de demanda cujos cruzamentos geraram 4 categorias, de destino, de acordo com seu grau de desenvolvimento do turismo:

Modelo teórico da matriz de cruzamento oferta x demanda, considerando índices estabelecidos no Plano de Regionalização do Turismo do Estado de São Paulo

Essa metodologia, adaptada a partir de métodos estatísticos, demonstra a maturidade de cada destino em relação ao turismo, evidencia o papel de municípios indutores e permite o agrupamento de ações de acordo com a realidade das regiões.

A regionalização do turismo vai muito além de agrupar municípios próximos ou com algum elemento de identidade comum. É fundamental prever estrutura e recursos (metodológicos, humanos e financeiros) para alimentar uma inteligência coletiva capaz de implementar as estratégias adequadas a cada realidade, além de monitorar constantemente a evolução dos municípios e seus impactos em suas regiões turísticas, priorizando assim uma visão sustentável no longo prazo.

É claro que essas reflexões não se encerram aqui e há inúmeros outros aspectos que podem ser considerados no processo de desenvolvimento turístico regional. Mas, certamente, os aspectos enumerados podem contribuir para uma estratégia de regionalização mais efetiva e bem sucedida!

Foto: Yuri Catalano

 

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Turismo 360

A Turismo 360 é uma empresa de consultoria que acredita no turismo como ferramenta para o desenvolvimento local. Tem o propósito de desenvolver, em conjunto com as comunidades locais, o turismo nos destinos de maneira sustentável, fortalecendo o senso de responsabilidade coletiva para melhor apropriação de benefícios (econômicos, sociais e ambientais)