Dia Mundial do Turismo 2026: o que não podemos deixar a inteligência artificial decidir por nós?
No ano em que a ONU Turismo coloca a agenda digital e a inteligência artificial no centro das discussões sobre o futuro do setor, profissionais convidados pelo Turismo Spot refletem sobre escolhas que envolvem governança, clima, territórios, hospitalidade e a própria experiência de viajar.
Dia Mundial do Turismo 2026 coloca a inteligência artificial no centro do debate
Celebrado em 27 de setembro, o Dia Mundial do Turismo chega a 2026 com um tema diretamente ligado a uma das transformações que mais rapidamente têm atravessado empresas, destinos e o comportamento dos viajantes: “Agenda digital e inteligência artificial para redesenhar o turismo”, em tradução livre do tema definido pela ONU Turismo, “Digital Agenda and Artificial Intelligence to redesign tourism”. A celebração oficial deste ano será realizada em El Salvador.
Ao apresentar o tema, a ONU Turismo chama atenção para possibilidades que passam pela melhoria da experiência dos visitantes, eficiência operacional, sustentabilidade e capacidade de adaptação do setor. São aplicações que já começam a fazer parte da rotina do turismo: sistemas analisam grandes volumes de dados, recomendam destinos e experiências, ajudam a organizar deslocamentos, traduzem idiomas e apoiam decisões de empresas e gestores.
Mas a ampliação dessa capacidade tecnológica também abre uma pergunta anterior à escolha das ferramentas: quais decisões queremos, de fato, delegar a elas?
Foi a partir dessa provocação que o Turismo Spot convidou profissionais com diferentes trajetórias e campos de atuação a responder a uma mesma questão:
A inteligência artificial pode redesenhar o turismo. O que não podemos deixar que ela decida por nós?
As respostas apontam para uma discussão que ultrapassa a tecnologia. Falam sobre quem define os rumos do desenvolvimento turístico, quais territórios ganham visibilidade, que impactos estamos dispostos a aceitar e o que acontece com dimensões da viagem que dependem da presença, da troca e da experiência humana.
Escolhas sobre desenvolvimento e estratégia de destinos continuam sendo humanas
Luciana Sagi

“A IA pode ampliar muito nossa capacidade de analisar informações, antecipar cenários e apoiar decisões. Mas ela não substitui escolhas que são nossas. O que entendemos por desenvolvimento, o que queremos proteger, quem deve se beneficiar e que impactos estamos dispostos a aceitar continuam sendo decisões humanas, que exigem julgamento, responsabilidade e propósito.”
Luciana Sagi é turismóloga, mestre em Hospitalidade, doutoranda em Ciências pela USP e consultora especializada em desenvolvimento territorial do turismo e áreas protegidas.
Marcela Pimenta

“Entendo que devemos usar a IA a favor do turismo, fortalecendo, por exemplo, os conteúdos relacionados à autenticidade dos destinos para potencializar a comercialização, ampliar pesquisas e o tratamento de dados que reforçam a estratégia comercial, a sustentabilidade e a visão de futuro. No entanto, como gestores, devemos estar prontos para fazer as perguntas certas e questionar os resultados. Com tantos dados disponíveis, quem tiver maior capacidade analítica irá se sobressair. A estratégia de desenvolvimento sustentável dos destinos está nas nossas mãos; não podemos delegar à IA.”
Marcela Pimenta é turismóloga, cofundadora do Turismo Spot e sócia da Turismo 360.
Governança e impactos da tecnologia
Cassio Aoqui

“A inteligência artificial pode redesenhar o turismo, mas não podemos permitir que decida, sob critérios opacos e interesses concentrados, quais destinos merecem ser vistos, quais culturas serão narradas, quais trabalhos continuarão valorizados e quem terá acesso às oportunidades e aos benefícios gerados pelo setor. Minha maior preocupação vai além do turismo: decisões capazes de reorganizar economias, territórios, relações de trabalho, imaginários e modos de vida estão sendo tomadas por pouquíssimas empresas e governos, com participação social ainda muito limitada. Turismo, sociedade civil, universidades, comunidades e poder público precisam ocupar esse debate, incidir sobre políticas e construir formas efetivas de governança. O futuro da IA deve ser uma escolha democrática da sociedade brasileira ou, melhor, da humanidade, incluindo o direito de decidir o que desejamos potencializar, regular ou simplesmente não delegar às máquinas.”
Cassio Aoqui é consultor e pesquisador com foco em filantropia e sociedade civil, doutor em Mudança Social e Participação Política, pós-graduado em Turismo pela UnB, pai do Bernardo e marido do Mateus, tudo junto e misturado, e apaixonado por viagens. Teve o privilégio de conhecer todos os estados brasileiros e mais de 100 países.
Inteligência artificial, turismo e mudanças climáticas
Jaqueline Gil

“A Inteligência Artificial (IA) certamente é uma importante e crescente aliada dos negócios e do turismo.
Os rumos do turismo, no entanto, precisam estar sob nosso controle e intencionalidade. No caso da interseção entre turismo e mudanças climáticas, por exemplo, podemos ter na IA um meio para acelerar nossa — necessária e atrasada — transição ao baixo carbono, em detrimento de tê-la como aceleradora de mecanismos intensivos em emissão de gases de efeito estufa. Da energia de seus data centers às soluções que podem oferecer aos viajantes e aos planejadores de destinos e de empresas, ter como meta o carbono neutro (ou positivo) me parece o mínimo.”
Jaqueline Gil é conselheira em organizações internacionais, palestrante e líder na Amplia Mundo.
Visibilidade dos territórios e relações humanas
Thaís Rosa Pinheiro

“A IA tem facilitado em muitos aspectos o turismo, em relação ao deslocamento durante as viagens, otimizando rotas e traduzindo idiomas. Porém, ela não pode redesenhar o turismo, decidindo o que pode ou não ser visitado, quando e como ser visitado. Essas decisões precisam ser feitas pelo turista, pois isso impactará no significado e no propósito da viagem. Ela pode criar demandas de um determinado destino e excluir outros do mapa, impactando o turismo comunitário e culturas locais. Outro fator que pode impactar bastante o turismo são as substituições de interações humanas por máquinas, que, além de diminuírem a hospitalidade real, tirarão parte das experiências e memórias que trazemos e aprendemos nas viagens.”
Thaís Rosa Pinheiro é turismóloga, supervisora da Coordenação de Afroturismo, Diversidade e Povos Indígenas, mestra em Memória Social pela UNIRIO e fundadora da Conectando Territórios. Atuou como consultora da UNESCO e do Ministério do Turismo. Foi eleita melhor profissional de Afroturismo de 2025 pelo Guia Negro e melhor consultora pelo Victor Awards. Participou do Fórum Permanente Afrodescendente na ONU, em Genebra, em 2026, levando a pauta do Afroturismo.
Instagram: @trprosa
O que depende do encontro
Hubber Clemente

“No turismo de experiência, principalmente em segmentos como o afroturismo, em que a conexão humana é fundamental, dificilmente a inteligência artificial decidirá por nós. O ‘sentir’ ao vivenciar essas experiências é essencial; é impossível o artificial substituir o real.”
Hubber Clemente é CEO da AFROTURISMO HUB e presidente da Associação Brasileira de Afroturismo (ABRAFRO).
Isabela Sette

“A IA nunca vai substituir o encontro humano, porque viajar é também ser recebido, escutar, aprender, trocar e perceber outros modos de viver, outras culturas e outras paisagens. É sentir o sabor, o cheiro, os sons e o acolhimento de um lugar. A tecnologia pode nos ajudar a planejar a viagem, encontrar caminhos e até criar experiências interessantes, mas a curiosidade, a interação e a percepção do território continuam sendo humanas. E há algo que a IA também não substitui: o acaso. O desvio de rota, a conversa inesperada, o lugar que ninguém indicou, uma descoberta ao virar uma esquina, uma cor, um cheiro ou um sabor que nos surpreende. São justamente essas experiências não planejadas que, muitas vezes, se tornam as histórias que levamos conosco e fazem de uma viagem um lugar especial na nossa memória.”
Isabela Sette é turismóloga, cofundadora do Turismo Spot e sócia da Turismo 360.
Redesenhar o turismo também significa escolher os critérios
As respostas reunidas pelo Turismo Spot partem de lugares diferentes, mas revelam alguns pontos de contato. A inteligência artificial amplia capacidades importantes para o turismo e pode oferecer instrumentos cada vez mais sofisticados para empresas, gestores, destinos e viajantes. Ao mesmo tempo, as decisões tomadas com seu apoio carregam critérios: o que se recomenda, o que ganha visibilidade, quais indicadores orientam uma escolha, quais impactos recebem prioridade e que atividades continuam dependendo de pessoas.
Por isso, discutir inteligência artificial no turismo envolve também discutir governança, responsabilidade, participação, diversidade de territórios e objetivos de desenvolvimento. Envolve compreender o que pode ser aprimorado pela tecnologia e quais decisões exigem contexto, negociação, sensibilidade, julgamento e compromisso com as consequências produzidas.
Há ainda uma dimensão mais difícil de traduzir em dados. Viajar continua envolvendo encontros, sentidos, memórias, histórias e acontecimentos que não estavam previstos no roteiro. A tecnologia pode interferir profundamente na maneira como descobrimos, planejamos e percorremos destinos. O significado que atribuímos a essas experiências permanece ligado às pessoas e aos lugares que encontramos no caminho.
No Dia Mundial do Turismo, o tema proposto para 2026 oferece uma oportunidade para que o setor acompanhe a velocidade das transformações tecnológicas sem perder de vista as perguntas que devem orientá-las.
No Turismo Spot, esse debate faz parte de um compromisso editorial permanente: reunir diferentes perspectivas, aproximar conhecimento técnico e prática e abrir espaço para as questões que ajudam a compreender os rumos do turismo — inclusive quando ainda não existem respostas prontas.



